O Conto da Aia – Margaret Atwood

Aviso: Essa resenha contêm Spoilers! Continue por sua conta e risco.

Alerta de Gatilhos: Violência. Abuso Sexual. 

Muitas das vezes o medo não provém de coisas sobrenaturais, mas sim, de coisas reais e palpáveis. O ser humano dá muito mais medo do que qualquer outra coisa. As pessoas são cruéis, ainda mais quando se deixam levar por ideias regadas de machismo e interpretações equivocadas de passagens bíblicas.


Nome: O Conto da Aia
Autor: Margaret Atwood
Páginas: 366
Editora: Rocco


Sinopse: Os Estados Unidos não existe mais. Agora, é um lugar chamado Gilead. Uma sociedade que excluí os direitos femininos, pelo simples motivo de que a humanidade está ficando estéril. Ter filhos é uma dádiva divina e como a maioria das mulheres não pode tê-los, novas regras surgem, princípios machistas e sexistas baseados em interpretações equivocadas de trechos bíblicos. Mulheres férteis agora são propriedades de casais que não podem ter filhos, são mantidas reclusas com o único intuito de gerarem uma criança para aqueles que se acham superiores e não podem tê-las.


4_20220302_105407_0003.pngO Conto da Aia” é aquele tipo de leitura que incomoda pelo simples motivo de ter um “que” de real. Uma história que embora seja fictícia, mostra que a sociedade pode ser muito cruel, ainda mais quando encontra na religião um respaldo para atitudes atrozes. É claro, que esse respaldo é de trechos tirados totalmente de contexto.

Aqui o machismo e o sexismo impera. Tanto por apresentar uma sociedade que retira todo e qualquer direito das mulheres, quanto por evidenciar que o sexo feminino tem como principal função a procriação. É triste perceber que embora seja mera ficção, alguns países do nosso mundo ainda veem a mulher como um receptáculo de filhos.

Nesse ponto, vale relembrar que a ficção muitas vezes reflete a realidade.

Em condições de vida reduzidas o desejo de viver se prende a estranhos objetos. Eu gostaria de um animal de estimação: um passarinho, digamos, ou um gato. Qualquer coisa familiar. Um rato serviria, numa emergência, mas não há nenhuma chance disso. Esta casa é limpa demais.”

Um livro que detêm uma ótima crítica sócia, política e religiosa. Afinal, é devido a interpretações equivocadas de pontos específicos da bíblia que a sociedade de Gilead se mantém; excluindo do mundo moderno tudo que um dia foi normal, fazendo das mulheres propriedades dos homens, sem qualquer direito e sem liberdade de expressão.

Gilead é tenebrosa.

A Sociedade de Gilead

Esse é um dos pontos altos de “O Conto da Aia”, a construção distópica da sociedade de Gilead. Uma comunidade assombrosa e infinitamente real, visto que é possível para o leitor fazer diversos paralelos com sociedades que existem ao redor do nosso mundo.

O simples fato de tirar a pesada touca com as abas brancas e o véu, o simples fato de sentir meu próprio cabelo de novo, com as minhas mãos, é um luxo.”

Gilead é comandada por homens que detêm preceitos guiados pela bíblia, uma interpretação equivocada de certas histórias. Aqui, a sociedade se mantém colocando a mulher embaixo, tirando seus direitos e suas formas de expressão, fazendo com que elas sirvam apenas para procriação e sejam descartadas logo após cumprir o seu “papel” devido.

Gilead é tenebrosa e eu já disse isso, mas é impossível não repetir.

Cada momento e cada trecho em que o leitor se depara com as diversas nuances dessa sociedade insólita, se torna um tormento. Isso porque a trama incomoda ao ser tão bem construída em uma distopia absurdamente real.

E esse incomodo se torna ainda mais forte por esse ser um livro narrado em primeira pessoa, o que corrobora para que a realidade narrativa seja forte e perturbadora.

A religião e o Governo Opressor

E embora a questão política não seja o foco de “O Conto da Aia”, ela se faz presente ao longo de toda a narrativa, evidenciando o quanto Gilead é movida pelos interesses mundanos de seus governantes.

Um governo opressor que não poupa a sociedade de inúmeros castigos e punições severas contra aqueles que quebram suas regras. Aqui, a punição para “crimes” é a morte ou mesmo a mutilação. O tenebroso em tudo isso, é perceber como os rebeldes são castigados, mortos e cruelmente expostos como uma forma de exemplo para os demais.

O Muro é sem dúvida um dos castigos mais imensuravelmente tenebrosos em toda essa narrativa.

O corpo é tão facilmente danificado, tão facilmente descartado, desfazer-se dele é tão fácil, água e substâncias químicas é tudo o que ele é, pouco mais complicado do que uma água-viva secando na areia.”

Outro ponto que merece ser destacado é a religião. Como já mencionei, aqui temos uma sociedade que se mantêm através do discurso pregado por meio da interpretação equivocada de trechos da bíblia, mais precisamente de trechos do velho testamento.

Sendo assim, fica claro a intenção da autora de criticar certos fanatismos religiosos que existem no nosso mundo atual e que carecem de reflexão acerca de suas atitudes extremas. Em síntese, quantas vezes você já viu a bíblia ser tirada de contexto? Eu já vi muitas e é isso que me afasta completamente da religião.

Narrativa em primeira pessoa

Offred é a protagonista e narradora de “O Conto da Aia” e talvez seja devido a esse ponto que o livro seja tão tenebroso. Afinal, o leitor penetra na mente da personagem, entendo suas nuances, medos e anseios, mas principalmente, compreendendo que aquela sociedade fez uma lavagem cerebral nas mulheres.

Meu nome não é Offred, tenho outro nome que ninguém usa porque é proibido. Digo a mim mesma que isso não tem importância, seu nome é como o número de seu telefone, útil apenas para os outros; mas o que digo a mim mesma está errado, tem importância sim. Mantenho o conhecimento desse nome como algo escondido, algum tesouro que voltarei para escavar e buscar, algum dia. Penso nesse nome como enterrado. Esse nome tem uma aura ao seu redor, como um amuleto, um encantamento qualquer que sobreviveu de um passado inimaginavelmente distante.”

Porque sim, Ofrred é uma mulher conformada que de certa forma “aceitou” sua condição e isso fica evidente em vários pontos da narrativa.

E o que quero dizer com aceitação, é o fato de que a personagem se resigna com o que lhe ocorre, não detendo nenhuma perspectiva de melhora futura. O fato é, que não podemos julgar sua forma de pensar, afinal ela vive aquela realidade, nós não. Sendo assim, ela sabe exatamente se tudo que vive é passageiro ou não.

Infelizmente, o livro não dispõe de qualquer forma de esperança para o leitor ou para a própria personagem. Pelo contrário, aqui temos apenas evidências de que Gilead perduraria por anos e anos. É triste e tenebroso perceber como quando as coisas ficam ruins, podem durar anos e fazer com que nós nos acostumemos com a realidade infame ao qual somos submetidos.

Uma dura e triste compreensão…

Final Sem Esperanças

E esse definitivamente não é um livro fácil de ser lido. É difícil de acompanhar a trama e o desenvolvimento narrativo da história. Assim como é terrivelmente triste de compreender o final da obra, afinal é uma distopia que não traz nenhum conforto ou acalento para o coração do leitor.

O que você não souber não lhe trará sofrimento.”

A história não muda em nenhum momento. Offred não tem seu final feliz, ela nem ao menos tem um final. Pelo contrário, o que lemos é apenas a desolação iminente da personagem que acaba se deixando levar pelo amor que passa a nutrir por um rapaz; um amor proibido e que pode acarretar em inúmeras consequências para ela e para ele.

Mas Offred, do qual nunca saberemos o verdadeiro nome, não pensa nas consequências, mas sim no amor.

E mesmo que o epílogo seja um tanto “esperançoso”, visto que mostra que Gilead não existe mais. Ainda assim, o leitor se pega pensando “o que teria acontecido com Offred?”. Afinal, a conexão com a personagem existe, mesmo que ela possa parecer submissa demais a um governo opressor.

Offred não é uma heroína, mas eu entendo a personagem e não a julgo em nenhum momento.

O conto da Aia” é uma distopia tenebrosa por possuir ares realistas em que os verdadeiros monstros são os homens que controlam uma sociedade que subjuga e diminui a mulher. Um livro repleto de críticas sociais, políticas e religiosas, e que certamente impressiona o leitor por ter grandes semelhanças com a realidade.


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2 comentários em “O Conto da Aia – Margaret Atwood

  1. Que resenha maravilhosa. O livro estava na minha lista de leitura mas acabou de ir pro topo de próximos livros a adquirir. Fiquei curiosíssima, ainda mais pelo acaso de eu estar em um debate sobre esse assunto há poucos dias.

    Curtido por 1 pessoa

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