O Ano da Graça – Kim Liggett

 

Aviso

Essa resenha contêm Spoilers. Continue por sua conta e risco!


Aviso

Antes de ler, se atente aos seguintes gatilhos: Assassinato. Violência Física. Violência Psicológica.


Uma distopia que aborda com crueza o desafio de ser mulher e ter de enfrentar todos os dias o machismo e o assédio. Um livro que evidencia o quanto a nossa própria sociedade tem de crescer para que nós, mulheres, possamos nos considerar totalmente livres. Afinal, as distopias servem para criticar algum aspecto da sociedade.


“Talvez seja preciso acreditar em fantasmas para que eles consigam nos machucar.”

Nome: O Ano da Graça
Autor: Kim Liggett
Páginas: 333
Editora: Globo Alt


Sinopse: O Ano da Graça está chegando no Condado de Garner. Afinal, todos os anos o evento é obrigatório para as meninas de 16 anos. Uma espécie de ritual feito para que as garotas possam se livrar da “magia perversa” que corre por seus corpos e assim possam se tornar boas esposas para seus futuros maridos. Tierney não deseja isso pra si. Algo dentro de si lhe diz para lutar e fazer a diferença, mas se ela fizer isso enfrentará a justiça do Condado, será morta e suas irmãs mais nova sofreram também. Resta a ela, aceitar a condição e se deixar ir para o Ano da Graça, talvez lá ela consiga mudar alguma coisa ou plantar a sementinha de revolução na mente das outras meninas.


O Ano da Graça” é aquele tipo de livro forte, mas que consegue fazer o leitor refletir acerca da nossa sociedade atual e de como é desafiador ser mulher. Isso porque, na obra o que temos retratado são cenas de assédio e machismo que não estão extintas do nosso mundo real, pelo contrário, são instantes que se repetem dia após dia, e se você é mulher com certeza já passou por alguma situação semelhante.

É através de uma distopia, que basicamente exclui o poder de fala das mulheres colocando-as em posição submissa, sem direitos e as fazendo se tornar “objetos” de homens que as escolheram para casar, que a autora, Kim Liggett, traça um paralelo absurdamente real com a nossa própria sociedade. Afinal, não estamos totalmente evoluídos nos dias de hoje e em muitos lugares do mundo as mulheres não possuem nenhum direito.

“Somos chamadas de sexo frágil. Nos martelam com isso todo domingo na igreja, explicam que é tudo culpa de Eva por não ter expelido a magia quando pôde, mas ainda não entendo porque as garotas não têm escolha.”

Uma obra que choca ao leitor por apresentar não apenas problemas sérios que são enfrentados todos os dias por várias mulheres ao redor do mundo, como também expõe a lavagem cerebral sofrida pelas meninas que sem qualquer perspectiva de uma mudança futura, se deixam levar pelos seus medos e praticam as mais cruéis barbáries que se possa imaginar.

Como é difícil ser mulher

Assédio e machismo. Quem do sexo feminino nunca passou por uma experiência semelhante? É difícil encontrar qualquer mulher que nunca tenha passado por um dos dois. Em “O Ano da Graça”, talvez a mais dolorosa constatação é de que a nossa realidade não está tão distante da do livro, mesmo que este seja uma distopia.

Afinal, todas nós já sofremos com o Assédio e o Machismo em algum momento de nossas vidas.

“No caminho, vejo no pasto os cavalos que os guardas preparam para a viagem ao acampamento, com crinas e caudas trançadas com fitas vermelhas. Como nós. De repente, me ocorre: é assim que eles nos veem… não somos nada mais que éguas no cio.”

Mediante a isso, fica fácil não apenas se conectar com as garotas que estão indo para o temível Ano da Graça, como também entender seus medos e até certo ponto compreender suas atitudes, mesmo que essas sejam as mais tenebrosas possíveis. Elas não veem nenhum tipo de escolha para si mesmas. Se não se livrarem da magia serão mortas e isso é algo que nenhuma elas quer.

Sendo assim, quando qualquer uma das garotas do Ano da Graça se recusa a liberar a terrível magia que os homens tanto temem, fica fácil perceber como essa “negação” faz com que umas se rebelem contra as outras, exercendo as mais terríveis crueldades apenas para que a menina diga liberar uma magia que no fundo nunca existiu de verdade.

Um complexo de Deus

É a partir desse pressuposto que uma das garotas decide que deve tomar a liderança. É assim que não fica difícil para as outras acreditarem fielmente em seu discurso, mesmos que este esteja regado de loucura e se assemelhe as falas cruéis e desumanas que certos ditadores usaram para fazer um local inteiro acreditar e ser conivente com ohorror perpetuado.

“Talvez o motivo pelo qual ninguém fale do Ano da Graça seja justamente nós. Como os homens poderiam viver entre nós, dormir conosco, nos deixar cuidar das crianças, sabendo os horrores que infligimos umas às outras… sozinhas… selvagens… no escuro?

“O Ano da Graça” não possuí um vilão personificado, afinal é a própria sociedade masculina que se torna o antagonista central da obra, porém Kiersten, uma das meninas que está no Ano da Graça se encaixa muito bem no papel de “agente do caos” da obra. Isso se deve a todo o seu complexo de Deus que a faz enlouquecer aos poucos e discursar de forma firme para que as meninas liberem sua magia e nada de ruim aconteça com nenhuma delas.

Apesar de a personagem ser odiosa, é triste percebermos o quanto a sociedade presente na obra conseguiu mexer com a cabeça dessas garotas, que por temerem as represálias que podem sofrer caso não liberem a “magia”, acabam fazendo as mais diversas atrocidades umas com as outras, apenas para que uma mentira seja sustentada; a mentira de cada uma delas tem um poder.

Crueldade Adolescente

E embora essa crueldade adolescente que as meninas fazem entre si seja chocante, não é nada mais que um reflexo da sociedade doentia em que estão inseridas.

Vale ressaltar, que nessa obra a violência física e psicológica impera e além de ser angustiante, também consegue chocar o leitor mais sensível, visto que as cenas fortes vão desde abusos físicos e emocionais, até mortes violentas. Afinal, as meninas querem se livrar da magia e quando uma se recusa, coisas ruins podem acontecer.

“Ela acredita mesmo que pode aceitar a magia, se entregar à escuridão dentro dela, para então voltar uma mulher purificada. Livre dos pecados, pronta para recomeçar.”

Entretanto, uma coisa que achei bem interessante é que a loucura perpetrada pelas personagens não vem apenas da lavagem cerebral feita pelos homens da sociedade em que elas vivem, mas também de uma segunda coisa que deixa essa distopia com bastante sentido no que se refere a construção da personalidade das meninas que acabam se deixando levar pelas ideias doentias instaladas em suas próprias mentes.

Não é só um veneno exterior que as torna instáveis, mas o veneno de suas próprias mentes conturbadas.

O desfecho esperançoso

Porque sim, esse é um livro que apesar de todo o tema forte e a abordagem pesada que carrega em suas páginas, é finalizado com um desfecho que podemos classificar como esperançoso. Aquela centelha que se acende apenas para provar que por mais que tudo pareça estar ruim, sempre haverá esperança de que as coisas podem melhorar.

Tierney é aquela personagem que luta e briga para conseguir uma revolução. E é através do amor que ela consegue mudar as coisas, porque sim, são suas ações e atitudes que enchem todas as mulheres do Condado de Gerne de esperança de que tudo pode mudar algum dia. De que as coisas podem ser melhores para elas.

“Os homens nunca acabarão com o ano da graça. As mulheres, talvez sim.”

É assim, que os plots mais belos são revelados, fazendo com que o leitor fique com aquele quentinho no coração de que existe uma esperança para todas aquelas mulheres e porque não, para nós mesmas. O final é triste sim, de partir o coração, mas de longe foi um dos finais mais belos e repleto de significados que pude ler em um livro.

O Ano da Graça” é uma daquelas distopias que possuí um pé na nossa realidade. Embora seja fictícia (é claro), há de se ponderar que existem muitos debates reais em suas páginas. Afinal, o assédio e o machismo ainda existem na nossa sociedade, assim como é possível perceber que um discurso potente consegue criar o caos e fazer uma lavagem cerebral em seus seguidores. Um livro forte, mas absurdamente potente em sua crítica social.


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