A Filha Primitiva – Vanessa Passos

Alerta de Gatilhos: Abandono Paternal. Abuso Sexual. 

Um livro forte, impactante, cru e delicado o suficiente ao abordar de forma não romantizada a maternidade, expondo como a ausência paternal influência na vida adulta.


Um personagem só ganha vida, só se materializa com o nome.”

Nome: A Filha Primitiva
Autor: Vanessa Passos
Páginas: 97
Editora: Publicação Independente


Sinopse: Acompanhamos os devaneios de uma escritora sem nome que deseja saber quem é seu pai. Uma mulher que acabou de ser mãe e que não se sente mãe, que não se sente pertencente a um lugar, pois não sabe nada sobre sua história. Em meio a pobreza, racismo e principalmente ao fato de ter sobre si as expectativas de sua mãe; a moça se vê no limite de não saber nada sobre quem é. E é justamente por estar cansada de não ter uma história que ela pressiona sua progenitora em busca de um nome, apenas um nome; o nome de seu pai.


A Filha Primitiva” é aquele tipo de livro forte, que retrata com dureza e crueza a realidade de muitas pessoas que vivem sem saber sua verdadeira história; pessoas que crescem com a falta de uma presença paterna, que tiveram uma lacuna em suas árvores genealógicas. É assim, que a autora, Vanessa Passos, entrega ao leitor uma trama sensível e delicada, que faz o leitor ser empático ao longo de toda a narrativa.

A pior coisa no mundo é quando um homem sente ódio de uma mulher.”

Porque crescer sem uma figura paterna é fazer com que as pessoas percam sua própria história e nada saibam de seus passados. Dessa forma, a falta de um exemplo paternal para guiar e mostrar o mundo e suas adversidades, faz com que muitos medos e anseios sejam refletidos no futuro.

Além disso, a repetição de atos por meio de um ciclo vicioso não é tão irreal assim. Porque o que temos retratado na trama é exatamente isso; um ciclo em que a ausência paternal é constante. Enquanto a mãe passou por isso, a filha também e seu medo é de que a “Menina”, neta da matriarca tenha o mesmo destino. É por isso, que as coisas têm de ser diferentes e é exatamente por isso, que a maternidade para a filha se torna tão difícil de lidar.

É complicado escrever a resenha sem dar nomes, mas é exatamente a ausência de nomes que torna essas personagens tão críveis para nós, meros leitores e expectadores de suas histórias.

Maternidade

Porque esse é um tema que, muitas das vezes, é romantizado em excesso, tanto na literatura, quanto na vida real. E embora eu não seja mãe, sei que a maternidade não é fácil e que muitas pessoas gostam de enfeitar esse momento e principalmente, impor que toda mulher deve ser mãe para se sentir completa. Algo que não é verdade.

A maternidade retratada em “A Filha Primitiva” é real, crua e dura. É aquele momento em que existe uma conexão entre mãe e filho, mas também aquele instante em que tudo se torna mais difícil e complicado. Afinal, um filho não é apenas uma vida, mas também uma responsabilidade quase que eterna.

Já era tempo de parar de mamar, mas a menina continuava agarrada ao peito. No fundo eu gostava, porque era o único momento em que eu me sentia mãe de verdade. A menina sugando de dentro de mim a mão que eu não era.”

Aqui, vemos uma culpa da narradora da obra em não ter paciência para cuidar da filha, ou mesmo em deixar de dar atenção a “Menina” para poder escrever. Entretanto, é dessa mesma forma que a protagonista encontra sua dualidade e conflitos interiores, pois ela sabe que a criança, sua filha, é também uma fonte inesgotável de inspiração.

Por mais que a personagem não se sinta mãe e não esteja preparada para isso, ela É mãe e isso é refletido de forma crua na narrativa.

Paternidade e Pertencimento

Outro tema que é muito bem abordado pela autora em “A Filha Primitiva” é o fato de como a falta de um pai reflete em absolutamente tudo na vida de um filho que cresceu sem o carinho e atenção paterna.

A protagonista e narradora da trama não se sente completa. Sua história detém uma lacuna a ser preenchida e faz com que ela sinta que não tem uma história, que não pertence a nenhum lugar. Esse sentimento da personagem é fruto do desconhecimento de seu pai biológico, um homem sem nome e sem face, um segredo guardado a sete chaves por sua mãe.

Talvez esse desejo de escrever e criar histórias tenha surgido porque eu nunca tive a chance de conhecer a minha verdade.”

Mas é exatamente quando a moça insiste em saber suas origens, em saber quem é, que o leitor percebe o quanto aquilo não apenas era direito dela, como também um desejo de se sentir completa, mesmo que a história de seu passado a machucasse.

E machuca. A revelação é dolorosa, tanto para mãe, quanto para filha.

É triste perceber o quanto a ausência paternal provoca dor em uma família. Além de ser triste perceber o quanto um homem pode machucar uma mulher apenas por “achar” que ela feriu a sua virilidade. Ler a história do passado da mãe da protagonista, e do porque ela escondeu quem era o pai de sua filha por tanto tempo, é doloroso, mas também proporciona alívio.

Afinal, ninguém deve suportar sozinho uma dor tão profunda. As vezes é preciso desabafar.

Ciclo Vicioso

E uma coisa que fica implícita na narrativa, mas evidenciado nas entrelinhas de “A Filha Primitiva” é a questão do “Ciclo Vicioso”.

Porque veja bem, esse é um tema que está presente na trama mesmo que não seja explícito. Aqui, temos a avó que gerou uma criança sem pai por um motivo “x” e que devido a certos acontecimentos, manteve em segredo o nome do progenitor de sua filha, a protagonista da trama. Dessa forma, quando a moça cresce e gera uma criança, esta por sua vez, também fica sem pai, visto que o homem que a gerou não quis assumir a paternidade.

O ciclo se repete no que se refere a ausência paternal.

Fico pensando que escrever é um parto infinito. A gente vai parindo devagarzinho, letra por letra, que se não saem ficam encruadas dentro fazendo mal, ferindo a gente feito felpa que entra no dedo. Tem que tirar com agulha, espremer o pus. Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro.”

Dentro disso, como a narrativa é em primeira pessoa, é possível para o leitor entender e compreender os sentimentos da protagonista em querer saber quem era seu pai. Uma forma da personagem se sentir segura para, em um futuro, contar a sua filha quem a gerou. Dessa forma, a “Menina” pode ser o alicerce para o fim de um ciclo.

Nomes e Identificação

E uma coisa que achei interessante em “A Filha Primitiva” é o fato da autora não dar nome as mulheres da trama. Isso provoca uma conexão “leitor X personagem”, visto que a exposição de pensamentos da protagonista acarreta em sentimentos de identificação ao longo da obra.

Eu não sou boa com nome, nunca fui. Todos os personagens das minhas histórias não tem nomes, porque não consigo escolher. E eles seguem sem nome, podendo ser, qualquer um, o leitor ou até eu mesma. É só estar no mundo, porque a realidade, às vezes, é muito mais absurda que a ficção.”

Nomear um personagem é importante para fazer com que ele viva, mas quando ele não possuí um nome próprio que o identifique na narrativa, é fácil pensar que poderia ser qualquer pessoa. Sendo assim, é fácil pensar que as mulheres sem nome da trama, podem ser um eu, um você, ou aquela pessoa que conhecemos de vista na rua e não sabemos nada sobre.

Um nome, quando suprimido, pode ser uma pessoa real.

É assim que a narrativa se sustenta; expondo a história de vida de muitas mulheres que existem ao redor do mundo. Mulheres que são mães, avós, bisavós. Talvez, você já tenha ouvido uma história semelhante ao que a obra nos apresenta, afinal essa não é uma mera ficção, mas sim um espelho da vida real e de como a realidade pode ser muito cruel.

A Filha Primitiva” é um livro forte e que em poucas páginas faz o leitor criar empatia e proximidade com as personagens sem nome que compõem a trama. E é justamente por não serem nomeadas que é possível entender, compreender e se conectar com essas mulheres. Afinal, elas poderiam ser qualquer pessoa; alguém que conhecemos ou até mesmo, nós mesmas.


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