Tempo de Graça, Tempo de Dor – Frances de Pontes Peebles

Aviso: Essa resenha possuí Spoilers. Continue por sua conta e risco.

Alerta de Gatilhos: Suicídio, Assassinato, Violência

Um livro tão real que ao término é impossível o leitor não querer se imaginar ouvindo as composições fictícias criadas na narrativa. Uma história repleta de busca de sonhos, inveja, ascensão e queda. É quase improvável não se sentir triste ou eufórico em alguns momentos.


“Mas até mesmo as melhores intenções podem nascer do egoísmo. As minhas nasceram.”

Nome: Tempo de Graça Tempo de Dor
Autor: Frances de Pontes Peebles
Páginas: 366
Editora: Arqueiro


Sinopse: Quando em um belo dia o Engenho do Riacho Doce, recebe em suas dependências seus novos proprietários, Maria da Dores jamais imaginaria conhecer Maria das Graças, a menina responsável por fazer eclodir em seu interior, o mais súbito e belo desejo de se tornar cantora. É assim, que as duas fogem para o Rio de Janeiro, rumo a fama. Muitos encontros, desencontros e dramas atingem as mocinhas que com aulas de música e os incentivos certos, caminham lentamente para o sucesso repentino e a queda iminente.


Tempo de Graça, Tempo de dor”, é aquele tipo de livro com uma carga dramática tão forte e verdadeira que é quase impossível dizer ser ficção. A trama, narrada em forma da biografia de uma cantora que nunca existiu, mas que possui uma forte influência na música e no samba, é tão fundamentada que faz o leitor ponderar que realmente, em algum momento do passado existiu uma Sophia Salvador.

“Há uma lacuna entre nossa realidade e nossos desejos. Quando temos sorte, vivemos com segurança de um lado e espiamos o outro. Às vezes podemos atravessar a garganta, cruzar o vazio, mas por pouco tempo.”

Narrado de forma melancólica, poética e repleto de questionamentos sobre a vida, o livro é contado em primeira pessoa por Maria das Dores. Personagem que relata como conheceu sua amiga Maria das Graças e como as duas criaram um laço de amizade e amor tão grande que resolveram fugir para realizar seus sonhos, o de se tornarem cantoras de samba.

Personagens tão incrivelmente bem construídas pela autora que é quase impossível não se conectar com as meninas e achar que elas realmente existiram. O amor e a raiva caminham lado a lado nessa narrativa, afinal a autora criou personagens tão humanas em seus erros e acertos que em momentos o leitor vai odiá-las, em outros, amá-las.

Personagens

E não são apenas as protagonistas que são muito bem desenvolvidas. Em “Tempo de Graça, Tempo de Dor”, cada personagem tem sua importância explicada e justificada. Sendo responsável por mover detalhes na trama e por certos acontecimento futuros, sejam eles trágicos ou não.

Aqui, são os personagens que guiam a narrativa. Protagonistas ou secundários, são suas ações que fazem com que a história caminhe gradativamente para o súbito e taciturno final.

“Quem atribui o sucesso à sorte nunca teve sucesso de verdade. A sorte pode jogar uma oportunidade no nosso colo, mas só uma atenção constante, obsessiva, transforma essa oportunidade em algum sucesso significativo.”

É incrível, como a autora conseguiu dar vida a cada um de seus personagens, tornando-os humanos repletos de defeitos e qualidades. São pessoas tão reais que até suas atitudes erradas ou certas, podem ser justificadas por uma simples frase, “são humanos e errar faz parte da vida”.

E, embora eu ache que todos os personagens sejam reais, não posso afirmar que a conexão positiva com eles aconteça, o que não é ruim. É possível se identificar e gostar deles em um primeiro momento, mas é quase certo que em alguma parte da narrativa, o gostar se torna asco. Afinal, são humanos tão complexos e repletos de erros que chega a ser quase impossível se simpatizar de alguma forma com suas dores.

Inveja

Uma das coisas que faz com que nem mesmo as protagonistas sejam imunes a essa falta de empatia do leitor, é o fato de que ambas possuem de forma explícita uma inveja crescente uma pela outra.

“Nesse momento percebi quanto queria ter minha voz num disco. Queria ficar impressa em cera e ser copiada, vezes sem conta, invadir salas e cafés, penetrar nos ouvidos das pessoas e reivindicar um lugar em sua memória. Queria ser ouvida.”

Tanto Maria das Dores, quanto Maria das Graças, sentem aquele sentimento de superioridade e de inveja pelo sucesso da outra. Enquanto Dor esconde sua vontade de ser reconhecida e amada como Graça, esta que após conseguir se tornar uma diva do Samba se metamorfoseando em Sophia Salvador, não esconde o quanto se sente bem por se achar superior a amiga.

Ou seja, “Tempo de Graça, Tempo de Dor” infelizmente, é um livro permeado por uma amizade tóxica que culmina em um final trágico.

E embora Dor seja assumidamente apaixonada por Graça, é nítido que a moça tem uma inveja corrosiva por ela, afinal sua amiga consegue realizar o sonho que era de ambas. O desejo de serem cantoras de samba, o ritmo musical que não apenas as une, mas é a grande paixão das meninas.

Samba

E esse é o ponto alto de toda a trama. O Samba e como ele é inserido dentro da narrativa. A autora consegue de forma exemplar, criar uma cantora do gênero musical, além de acrescentar durante o final de cada capítulo a letra de uma das músicas compostas por Maria das Dores e Vinícius.

A paixão pelo ritmo musical e a forma como ele é apresentado e faz parte da vida de cada um dos personagens que compõem a obra, faz do ritmo musical não apenas o centro de todo o drama, mas também um dos protagonistas do livro. Se podemos ter cidades, parques e bares como personagens, também podemos ter um ritmo musical.

Afinal, o samba vive.

“O samba na roda tinha riso, mas não era uma festa; era um lamento. Quando você toca samba na roda, ri do seu próprio sofrer. Você e sua solidão dão as mãos e passeiam pela música, pasmos ao ver quão patéticos e gloriosos os dois são.”

Com uma história tão crível, letras musicais e uma personagem que parece infinitamente real, é quase impossível o leitor não desejar conhecer Sophia Salvador e o Bando da Lua Azul. Infelizmente, esse é um livro fictício, mas que tem cara de verdadeiro, seja pela paixão pelo samba que escorre de cada uma das páginas ou mesmo pela vivacidade apresentada pela autora em um Rio de Janeiro da década de 30.

Contexto histórico

Apesar da autora não focar a narrativa no contexto histórico em que se passa a história, ele está presente em todo momento e em cada uma das frases ditas pelas personagens.

Como Maria das Graças se torna a grade cantora Sophia Salvador, em vários momentos da narrativa, vemos a personagem se apresentar para grandes personalidades ou mesmo em locais que tenham uma certa história por trás de seus muros.

“Em 1935, uma garota não era apenas uma garota: ela era uma propriedade. Primeiro você pertencia ao pai, depois ao marido. Enquanto esses homens vivessem, você estaria sob a tutela deles, igual a uma criança ou um deficiente mental. A emancipação só vinha depois da morte deles.”

Outro ponto que também é bastante inserido na obra, é a questão política da época. Embora, a autora não entre em detalhes, algumas frases e momentos pertinentes retrocedem ao governo de Getúlio Vargas. É interessante, ler como esse período, de certa forma afeta as atividades do Bando da Lua Azul, apresentando assim um dos tópicos mais pertinentes a serem mencionados.

O preço da fama

Acredito, que uma das grandes lições que esse livro apresenta ao leitor é como a fama consegue destruir o emocional e a mentalidade de uma pessoa. A fama é boa, mas ela tem seu preço e muitas das vezes, é um preço muito alto a ser pago.

É triste, ler como Dor relata o fim de seus companheiros do Bando da Lua Azul. Como eles morreram no esquecimento, sem serem lembrados pelos anos dourados em que tocaram ao palco junto com a estrela do samba Sophia Salvador. A moça, também tem um final trágico por simplesmente não saber lidar com a crueldade que anda de mãos dadas com a fama.

“O exílio e a fama têm efeitos semelhantes: qualquer um dos dois torna seu mundo mais estreito, e as únicas pessoas que você consegue suportar – as que nos entendem de verdade – são as que estão no mesmo barco.”

Existem pontos que chegam a ser dolorosos de ler, que revelam a busca da aparência perfeita para estrelas de cinema, como a queda de um artista pode ocorrer a qualquer momento de forma brusca e dolorosa ou mesmo quando se percebe que o trabalho não rende tantos lucros. É triste, ler que no meio artístico a inveja reina, assim como a pressão para que todos sejam absolutamente perfeitos.

O final, é um tapa na cara da sociedade. É trágico, mas absurdamente real. Afinal, quantos artistas não se desesperam durante os anos de fama e acabam chegando aos extremos? Sophia Salvador pode não ter sido real, mas sua história é semelhante à de muitos artistas que tem de fingir um sorriso em frente as câmeras enquanto choram por dentro sem terem a ajuda necessária.

Tempo de Graça Tempo de Dor” é um livro absurdamente poético, melancólico e dramático, mas que possuí em cada um de seus capítulos uma beleza indiscutível, por mostrar ao leitor que seguir seus sonhos é uma opção válida. Ainda assim, a trama não se deixa iludir e apresenta os riscos que a fama traz, além de mostrar com crueza, como o meio artístico tende a ser malicioso.


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2 comentários em “Tempo de Graça, Tempo de Dor – Frances de Pontes Peebles

  1. Lendo o comentário do tempo de graça e tempo de dor, não há como me abster…

    Por mais que alguém cuide, na hora que alguém está subindo os degraus da fama e do sucesso aos olhos de alguém (não que signifique notoriedade a todos na plateia) , inevitavelmente este alguém vai jogar um mínimo de poeira nos que vem atrás subindo também ou parado olhando, inerte.
    E do pó veio cada ser humano, a menor partícula da terra, não que muitos concordem, mas mesmo um átomo de pó, será pó e pertencerá ao pó.
    E mesmo com toda a sua humildade, na nossa humildade e humanidade, acabamos ao jogar pó da fama, da notoriedade e do sucesso, fazer com que muitos se sintam humilhados.
    Com a o sentimento de humilhação, surge a indignação frente ao sucesso de alguém…
    E dai para a inveja é um degrau, ahhhh inveja, tristeza pela alegria alheia.
    E dela, a inveja, dela surge o orgulho ferido… (tem variações),
    Do orgulho ferido, surge o ciúmes pela alegria e notoriedade de alguém frente ao alvo de nossa atenção…e vem o sentimento de injustiça em meio a indignação, a famosa frase:
    Ele não merecia esta fama, esta glória, este sucesso, este dom, esta virtude, esta graça.
    A soma da inveja mais o ciúmes e uma pitadinha de orgulho ferido teremos o despeito.
    Do despeito teremos a dissimulação, a mentira, o fingimento e se for no meio do sacro santo sagrado, teremos a não menos famosa hipocrisia.
    Ahhhh Hipocrisia que é um vício de simular um dom , uma virtude, um galardão, uma glória, uma graça e iludir com a pseudo santidade os átrios imaculados de inúmeros cônjuges e das igrejas de todas as religiosidades…
    Trecho de meu livro ainda em confecção.

    Curtido por 2 pessoas

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