Dom Casmurro – Machado de Assis

Aviso: Essa resenha possuí Spoilers. Continue por sua conta e risco.

Um clássico nacional que até hoje é lido e relido por muitas pessoas. “Dom Casmurro” é sem sombra de dúvida aquele tipo de livro que fomenta uma grande discussão acerca de seu conteúdo, afinal a questão “Traiu ou não traiu” é estudada até mesmo em cursos de direitos. Certamente, um acerto na literatura nacional, por mais que a trama nada tenha de excêntrica.


“A alma da gente, como saber, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro”

Nome: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Páginas: 209
Editora: Editorial SOL90


Sinopse: Quando ao chegar na tenra velhice, Bentinho resolve nos contar um pouco da sua paixão com a bela Capitu. Vemos o homem revelar um episódio fatídico que ocorreu durante os anos dourados de seu casamento com a moça; a suspeita de adultério. É através da narrativa não confiável do protagonista que conhecemos sua história e os pontos que o fazem achar que sua esposa o traiu com seu melhor amigo, Escobar.

Mas afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Vamos descobrir isso ao longo do livro? Ou vamos apenas criar teorias que confirmam ou que refutam a afirmativa do personagem?


Dom Casmurro” é aquele tipo de clássico que já faz parte da nossa cultura nacional, afirmo isso com certeza. Afinal, mesmo depois de 100 anos da sua publicação original, ainda gera discussões acerca do grande dilema que permeia as páginas finais da obra, no fim teria Capitu traído seu marido Bentinho, ou isso é mera paranoia de sua cabeça enciumada?

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui.”

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Bentinho, a trama é uma espécie de romance psicológico do realismo brasileiro. A obra escrita pelo saudoso Machado de Assis, não deixa dúvidas de ser uma grande crítica a sociedade burguesa que se expandia em terras tupiniquins no final do século XIX, apresentando ao longo da narrativa, a vida de pessoas mais abastadas.

Através de capítulos curtos e a quebra constante da quarta parede, Bentinho se comunica a todo instante com o leitor, expondo suas dúvidas e sentimentos durante a trama. E apesar desse recurso literário ter a função de aproximar leitor e personagem, vale ressaltar que é necessário ler esse livro com uma coisa em mente: a falta de confiabilidade do protagonista.

Isso se deve ao fato do leitor possuir durante todo o enredo a exposição dos fatos através do ponto de vista de Bentinho, um personagem que possuí um ciúme exagerado e exacerbado de sua esposa Capitu. A traição realmente ocorreu ou será apenas um surto de ciúmes do protagonista?

No fim, não sabemos e cabe a nós mesmos conectarmos as pistas deixadas por Assis em sua obra e interpreta-las da melhor forma possível.

Ciúmes doentio de Bentinho

Com isso em mente, vamos ao primeiro ponto pertinente da narrativa, o ciúme exacerbado e doentio de Bentinho.

Desde quando eram jovens e mantinham o romance escondidos, o personagem já mostrava sinais de que possuía uma loucura pela moça. Existe uma passagem que revela toda a paranoia do homem, afinal ele apenas vê um rapaz passando de cavalo em frente a janela da amada e ela acena para o conhecido. Enraivecido, Bentinho vai embora e ignora Capitu.

“Os meus ciúmes eram intensos, mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu, a terra e as estrelas.”

Esses é um dos trechos cruciais apresentado em “Dom Casmurro” e que faz o leitor perceber o quanto Bentinho se deixava consumir pelo ciúme. O personagem enxergava aquilo que achava ter acontecido, mas ele não possuía provas concretas de uma infidelidade. A desconfiança que tinha em Capitu o levou a acusa-la de traição próximo ao final do livro, mas o fato mais relevante da situação é que ele não tinha certeza, apenas uma suspeita.

É necessário abordar que esse comportamento de ciúmes resiste em toda a obra, apresentando momentos que fomentam a personalidade possessiva do narrador que tenta em algumas ocasiões mandar em sua esposa. A falta de confiança é um problema desde de quando Bentinho era jovem, talvez fosse uma mera representação de seu verdadeiro caráter.

Confiabilidade do Narrador

Uma das coisas que sempre me chama a atenção nas obras de Assis é a forma como o autor conta suas histórias. Em “Dom Casmurro” temos a típica e nada confiável narração em primeira pessoa pelo personagem Bentinho. E porque eu digo que essa não é uma narrativa confiável?

Ora, vejam bem. Todos os fatos são apresentados apenas por um personagem que além de nos contar a trama através de seu próprio ponto de vista, também expõe “falas” de seus conhecidos e amigos. A história gira em torno de uma traição que Bentinho desconfia apenas por achar que Ezequiel, seu “filho” com Capitu se parecia com seu falecido amigo Escobar.

“O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contrarregra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovoada, um carro, um tiro.”

Entretanto, vale ressaltar que a semelhança infantil pode ser apenas em alguns traços e que o personagem exagera nas comparações, já que quando o garoto alcança a vida adulta, apenas Bentinho o encontra e nota a “perfeita cópia” de seu amigo. Fato é, que nessa fase não temos um segundo personagem que corrobore com esse pensamento.

Ou seja, apenas Bentinho encontra seu filho já adulto. Apenas ele o vê e faz a comparação. Um indicio forte de que toda a narrativa é manipulada em prol do personagem, que tenta a todo custo colocar Capitu como uma adultera. Fato é que, não podemos confiar 100% em tudo que ele diz.

Solidão após tudo

Talvez esse seja um ponto não tão importante, mas mesmo assim, creio que seja pertinente mencioná-lo pois faz parte da narrativa pessoal do personagem.

Na trama, conhecemos um Bentinho já velho, com seus quase 90 anos de idade e que resolve relatar ao leitor a sua história de amor (problemática) com a bela Capitu. Aqui, logo no primeiro capítulo temos uma explicação espontânea para o apelido “Dom Casmurro” que dá título ao livro.

“Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.”

Fato é, que Bentinho se encontra na velhice, morando com um criado apenas. Um idoso sozinho que relembra os amores e dores de seu passado. Um homem que se encontra amargurado por findar o restante de seus anos sozinho, por ter perdido a mulher que um dia amou e o filho que poderia ser seu.

Mesmo que toda a história queira colocar Capitu como uma mulher adultera, é nítido que o personagem sente falta da moça, de sua alegria e beleza. É evidente que a solidão faz mal a ele. É mais legível ainda que ele sente saudades dos velhos tempos, mesmo que estes tenham sido em parte dolorosos.

Com isso compreendido, vale ressaltar que a mente de Bentinho já não era mais a mesma, então sim, eu vou bater na tecla de que muitos dos eventos narrados pelo personagem podem ter sido manipulados pelo próprio.

A interpretação da Culpa

Mas, vamos ao que interessa! Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

Bem, vou apresentar a vocês as duas interpretações possíveis da obra, usando argumentos que percebi durante a leitura.

Vamos começar com um cenário em que a moça é uma adultera.

Esse ponto das interpretações é uma das coisas mais saudosas na escrita de Machado de Assis, afinal o autor dissemina pistas ao longo da trama que podemos relacionar com a culpabilidade da personagem. Pistas essas que não são notadas em primeiro momento por Bentinho, mas que nas páginas finais da obra ele se lembra e menciona ao leitor.

“Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”

E existem dois momentos pertinentes que podemos destacar como uma prova da culpa da moça.

O primeiro, se refere a encontros escondidos que ela tinha com Escobar. Em um determinado momento, Capitu mostra para Bentinho que conseguiu poupar uma certa quantia de dinheiro, surpreso ele questiona quem havia sido o corretor e o mesmo fora seu amigo Escobar que visitou a residência do casal no mesmo dia, um pouco mais cedo. Essa passagem nos dá aquela pista de que a mulher encontrava Escobar, mesmo que naquela ocasião o motivo fosse inocente, em um futuro poderia não ser.

Já a segunda circunstância que fomenta essa culpabilidade da moça se refere à uma passagem em que o casal combina de ir a ópera, mas como no dia Capitu não se sentia bem, apenas Bentinho vai ao espetáculo. Qual não foi a sua surpresa ao chegar em casa e encontrar Escobar na porta da residência. Apesar de ambos os personagem dizerem que não se encontraram, Bentinho relata que havia tanto na voz da esposa, quanto na do amigo uma certa relutância e nervosismo.

Novamente, não podemos deixar de mencionar que a narrativa feita por Bentinho pode sim, ser manipulada. O que, não impede o personagem de tornar as coisas mais suscetíveis a traição nesses pontos em específico.

A interpretação da Inocência

Mas, vamos a interpretação da inocência de Capitu. E temos alguns indícios que corroboram para que achemos que tudo não passa de uma mera paranoia de Bentinho. Existem ao todo, três pontos interessantes que fomenta a discussão acerca da inculpabilidade da moça.

O primeiro se refere a uma passagem logo no início. Nessa parte, Bentinho visita a casa de uma amiga da moça, Sancha e quando observa um retrato de uma mulher na parede o acha estranhamente parecido com sua amada. Nesse ponto, surge o pai de Sancha que confirma a semelhança entre as duas. Na trama não temos uma profundidade nesse contexto, mas em nenhum momento é mencionado que Capitu teria sido adotada, fato que corrobora para que a semelhança de Ezequiel com Escobar seja mera casualidade do destino.

“Quantas intenções viciosas há assim que embarcam, a maio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração.”

Já o segundo ponto é fomentado pelo fato de que ninguém além de Bentinho vê Ezequiel quando adulto. Ou seja, ninguém pode dizer se o menino é parecido ou não com Escobar. Esse fato em específico deixa mais claro como a narrativa de Bentinho pode ser manipuladora, afinal, ao se aproveitar que apenas ele virá o menino quando adulto, ninguém lhe questionaria o contrário.

E por fim, o terceiro motivo que pode inocentar a personagem são as inúmeras referências textuais de Machado de Assis à “Otelo”. Para quem não conhece, a peça “Otelo” de Shakespeare fala de um homem que matou a esposa depois de ouvir que ela o havia traído, o que ocorre era que a mulher era inocente no final das contas. Com essa referência, além de termos uma possível inocência de Capitu, também temos uma espécie de espelho entre Bentinho e Otelo, afinal estaria Bentinho no fim de sua vida duvidando de si próprio e se comparando a Otelo?

Relações humanas

E para encerrar essa resenha mais do que extensa, quero apenas expor uma breve analise pessoal sobre a obra em si.

Acredito que “Dom Casmurro” seja um livro que reflete em quase toda a sua essência a complexidade das relações humanas. Quando paramos para ver o quanto Bentinho é ciumento e possível, vemos o quanto o personagem é conflituoso com si mesmo. Ele confia na esposa em um certo momento, mas logo começa a desconfiar, seu caráter possessivo sempre esteve ali.

Quanto a Capitu, é nítido a beleza e sensualidade da moça. Desde pequena as pessoas falavam sobre sua formosura e os olhos de cigana oblíqua. Seria Capitu inocente ou culpada? Ela já dava indícios de que não seria uma esposa fiel? Ou ela sempre deu indícios de sua fidelidade e amor ao marido?

“Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal.”

Personagens com complexidades tão grandes. Bentinho, apesar de julgar e condenar a esposa ao exilio devido a uma acusação incerta, prova que nunca fora um marido tão dedicado e fiel ao sentir atração pela esposa de Escobar. No fim, Bentinho era tão condenável quanto a esposa supostamente adultera.

Mas, será que toda a trama não se baseia em um único ponto? Culpa. O que me faz pensar se Bentinho realmente nos contou absolutamente tudo ou se a culpa o corroía tanto que ele apenas fez um manifesto querendo culpar uma outra pessoa.

Dom Casmurro” é um clássico da literatura brasileira e pode acreditar que merece o título. Uma obra que perdura até hoje com a discussão em relação a fidelidade de Capitu, mas que ao mesmo tempo deixa o leitor sem respostas. As entrelinhas precisam ser completadas para que a trama faça sentido ao final e um desfecho aberto gera discussões até hoje.

Afinal Capitu traiu ou não traiu?


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10 comentários em “Dom Casmurro – Machado de Assis

  1. Spoiler de Dom Casmurro é pleonasmo! Até quem não leu conhece a história. Demorei para ler esse livro. Fiz as pazes com Machado através dos contos, sobretudo os de Histórias Sem Data. Beijos,
    Rodrigo Rosas Campos

    ________________________________

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  2. Tenha traído ou não, Dom Casmurro sempre será uma pérola que perfeitamente encapsulara o ciúme. Agora, só pra não fugir do assunto: é óbvio que traiu! XD … Mas que foi culpa dele, foi… Parabéns, curti muito a resenha!

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  3. Dom Casmurro merece aí umas três leituras, no mínimo: a primeira para se encucar (traiu ou não?), a segunda para tentar encontrar a resposta (curtir os vários indícios da traição e da não-traição deixados aqui e ali) e a terceira para desistir de encontrar a resposta definitiva (rsrsrs).

    Baita livro e que é uma pena que muitas vezes entre em nossa vida pelo trauma das leituras obrigatórias de ensino médio.

    Ah, e ótima resenha e abordagem! Curti bastante a ressalva feita à Sancha: a função dela da trama problematiza bastante todo o rolê.

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