F.Ú.R.I.A Cyberpunk – Peter Larubia

Alerta de Gatilhos: Violência física, sexual e verbal. Gordofobia. Transfobia. Intolerância religiosa

Se eu fosse definir “F.Ú.R.I.A Cyberpunk” com apenas uma palavra, essa palavra seria eletrizante. Se você é aquele tipo de leitor que gosta de livros recheados de ação, explosões e violência; então esse é o livro certo pra você.


“Todo ser humano, no fundo, é igual. Todos são egoístas e podres.”

Nome: F.Ú.R.I.A Cyberpunk
Autor: Peter Larubia
Páginas: 241
Editora: Luva Editorial


Sinopse: No Rio de Janeiro de 2023, três meninas, integrantes da EPA (Eco_Punk_Ativista), são designadas para invadir a ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), com o intuito de colocar laxante na água do lugar e provocar uma espécie de manifesto contra o governo corrupto. Porém, as coisas não saem como esperado quando uma das integrantes tem a ideia de roubar uma maleta, que estava na mesa do deputado que elas queriam atingir, algemando-a em seu próprio pulso. As meninas são descobertas, uma perseguição acontece e elas descobrem que a mala além de estar trancada, tem uma contagem regressiva…

O que tem na maleta? Uma bomba? Elas vão continuar sendo perseguidas pelo deputado e seu ciborgue de estimação?


F.Ú.R.I.A Cyberpunk” é aquele tipo de livro que eu não recomendo para todos os públicos. A trama, apesar de simples, é carregada de uma violência gore capaz de chocar aos leitores mais sensíveis. Além de ser permeada de momentos em que alguns personagens sofrem preconceito, gordofobia e transfobia.

Através de uma narrativa frenética, Peter Larubia apresenta uma história repleta de críticas sociais, políticas, religiosas e até mesmo ambientais. A trama, crítica de forma árdua e ácida a Igreja Católica, abordando temas sensíveis do meio religioso e questionando todo o poder e a manipulação exercida pelo clero. Embora, essa não seja o enredo principal do livro, foi o que chamou a minha atenção.

A história em si, gira em torno de um jogo de poder que envolve política, Igreja Católica e o destino da população do Rio de Janeiro. Nesse ponto, é interessante destacar como o autor amarrou os dois poderes para criar um grupo “vilanesco” que além de tenebroso, consegue dobrar a mídia à seu favor e colocar a oposição como “errados“.

Nada diferente do que acontece na realidade, certo?

Um Jogo de poder

Esse jogo político é o seio principal da obra, sendo necessário para compor o enredo que permeia toda a história. Larubia apresenta um governo corrupto, que faz aliança com a Igreja Católica para ter total controle sobre a água do Rio de Janeiro. Além disso, o governo apresentado também possuí milicianos a seu favor o que corrobora para que percebamos o quanto a política pode jogar sujo em razão de suas ambições.

Como esperar outra coisa dessa midiazinha mambembe? Acho um porre esses tempos onde o conceito de verdade e tão volátil quanto água e quem detêm a razão é sempre quem pode pagar mais.”

Aqui, o povo não importa, sendo apenas pessoas que o governo deseja eliminar ou fazer acreditar em suas palavras mentirosas. Para esse fim, conseguem manipular uma imprensa corruptível que despeja ódio e opiniões que mesmo desfavorecendo a população, ainda são vistas como certas. Infelizmente, nada disso é novidade para nós.

Uma coisa que percebi e achei bastante interessante, é que o autor se inspirou em personalidades políticas reais que governaram o Rio de Janeiro, além de citar algumas fraudes que ocorreram no estado. Embora esses detalhes sejam implícitos, está lá e um leitor mais atento ou mesmo residente do “Hell de Janeiro“, será capaz de notar as sutis referências.

Mundo cyberpunk pós apocalíptico

O que mais achei interessante na trama é que ela se passa no Rio de Janeiro de 2023. Nesse período, o autor cria uma espécie de controle sobre a água, o que faz o líquido se tornar escasso no estado. Outro ponto, é que Larubia elabora uma explosão química que afeta de forma significativa os humanos, deixando-os doentes ou com problemas de pele.

O interessante dessa questão, é que o autor deixa o leitor com uma curiosidade proposital de querer saber como são essas pessoas, ler sobre eles ou mesmo vê-los. Fatos que não são explorados na trama. E não, isso não é um demérito, mas sim compreensível, afinal o foco principal do enredo não é a explosão que deformou parte da sociedade.


E além dessa população doente, é pertinente mencionar que a narrativa é guiada por vários elementos Cyberpunks que tornam a trama menos “perigosa“. Durante a leitura, o leitor é apresentado a coisas como: ciborgues que atuam como guarda-costas e óculos escuros que permitem cegos voltarem a enxergar, pois funcionam através da vibração local e sonar.

Apesar dos elementos Cyberpunks serem bastante interessantes e se encaixarem com a premissa, assumo que eles também incomodam um pouco, visto que depois de certo tempo eu deixei de me preocupar com as protagonistas por saber que algum fator iria ajudá-las. Acho, que o recurso de “Deus ex-machina” foi usado a exaustão pelo autor, o que pode tornar a trama previsível e tirar o clima de perigo que a história deseja passar. Ao chegar nas páginas finais, eu já sabia que tudo de alguma forma daria certo.

Tiro, Porrada, Bomba e Água

E que frenética é essa leitura. Confesso, que eu não sou fã de histórias com ação, explosões e que me deixem eufóricas. “F.Ú.R.I.A Cyberpunk” tem tudo isso, e sim, eu demorei um pouco mais para concluir a leitura, porque me sentia cansada mentalmente para ler tantas explosões e sangue expirando de um lado a outro.

No entanto, afirmo que isso é uma opinião pessoal minha como leitora. Esse frenetismo e a ação da trama não a torna ruim, muito pelo contrário, os leitores que gostam de enredos rápidos em que coisas explodam e muitos eventos ocorram ao mesmo tempo, irão adorar essa história.

“O fato de terem sido três mulheres a invadir a Assembleia Legislativa só colocava mais gasolina na fogueira. Um dos esportes preferidos do ser humano voltava à tona: queimar bruxas. Não que ele tivesse saído de moda em algum momento, mas agora o alvo era chamativo demais, icônico demais: três meninas mascaradas desafiando o poder pré-estabelecido. Era um tapa muito forte na cara da conformidade.”

Peter Larubia desenvolve de forma muito bem articulada e planejada, conflitos para atrapalhar o caminho das nossas anti-heroínas. E admito, que esses conflitos são de deixar a boca aberta. Momentos eufóricos e repletos de violência que ouso dizer se assemelharem as obras de Tarantino. Sim, é sangue espirrando a torto e a direita.

E se você leitor, acha que esse pode ser um ponto desnecessário, afirmo que isso seria um ponto de vista seu. Ao meu ver, a violência e o gore estão na narrativa desde o início e Peter consegue criar momentos eufóricos muito bem, detalhando cenas grotescas com facilidade.

Alguns pontos que me incomodaram

No entanto, eu acho que o autor focou muito na violência explicita de sua obra e não tanto em tramas secundárias que seriam ótimas para a narrativa. Como por exemplo, as freiras que aparecem e seus passados sombrios que envolvem o abuso da Igreja Católica.

“Agora que sabia que não era louca, agora que sabia que possuía um dom e não uma maldição, podia morrer em paz. Sim, morreria lutando, e morreria em paz.”

Acredito que esse ponto seria uma ótima crítica a religião, mas o autor acabou não desenvolvendo tanto, apenas dando algumas pinceladas que não me deixaram satisfeita como leitora. Eu adoraria ver um pouco mais da história de alguns personagens, que na minha opinião, apareceram apenas para compor o elenco de mortos.

Outro ponto que me deixou incomodada durante a leitura, foi o fato do autor censurar palavrões com símbolos. Vamos lá, é uma trama repleta de violência, em que temos bombas explodindo, pessoas morrendo, torturas físicas e psicológicas e o autor achou necessário censurar palavrões? Na minha opinião, as palavras de baixo calão não incomodam tanto o leitor se elas tem um propósito na narrativa e se o tipo de história as comporta. Afinal, “F.Ú.R.I.A Cyberpunk” tem a obrigatoriedade de ser um livro para maiores de 18 anos.

As meninas

Ah, e vamos falar das protagonistas, anti-heroínas. Acho que Peter conseguiu dar vida a suas três personagens principais, apresentando em suas personalidades conflitos internos e dramas reais que fazem o leitor se identificar com elas. Ademais, cada uma possuí seu próprio caráter, sendo mulheres únicas que aprendemos a amar e odiar em alguns momentos.

Para elas a Vida ia muito além da vaidade humana. O ser humano era apenas mais um habitante do planeta. O ecossistema global era muito mais complexo, importante e mais bonito.”

Uma coisa que gostei na construção das três meninas é em como cada uma delas reage diante dos acontecimentos. Enquanto Madalena é a explosiva, repleta de fúria e raiva dentro de si, Nadine é a apaziguadora da situação, sempre tentando ver as coisas com o lado positivo e uma saída menos destruidora. Já Caty é aquele tipo de personagem que a principio parece ter caído de paraquedas no trio, mas sua desconstrução de patricinha para uma mulher forte e decidida nas páginas finais do livro é primorosa. Mérito total do autor.

Confesso que em vários momentos me peguei irritada com Madalena e suas atitudes impensadas, mas não posso deixar de admitir que me identifiquei com a moça que não leva desaforos para casa e acaba perdendo a cabeça em várias situações importantes, o que deixa o trio em maus lençóis.

F.Ú.R.I.A Cyberpunk” é o tipo de história que eu recomendo para leitores ávidos por uma boa história de ação, que queiram algo mais futurista e que apresente bons elementos cyberpunks. Apesar de não serem tão aprofundadas e o autor focar exclusivamente na ação, as críticas sociais e politicas estão presentes na obra, assim como a perversidade humana e o preconceito enraizado naqueles que se acham superior apenas por terem um pouco mais de dinheiro em seus bolsos.


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Você pode comprar a edição pelo próprio site da editora, deixo aqui o LINK para a versão física da obra.

4 comentários em “F.Ú.R.I.A Cyberpunk – Peter Larubia

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