Jane Eyre – Charlotte Bronte


Jane é certamente aquele tipo de personagem que adoramos conhecer em uma obra. Aquela protagonista que além de ensinar ao leitor princípios e virtudes, também cativa devido sua simplicidade. É aquele tipo de personagem que acaba se tornando muito mais do que apenas uma criação. Jane Eyre se torna aquela velha e boa amiga que nos acompanha durante algumas centenas de páginas.


“É assim, a vida. Mal você se adapta a um lugar e já surge uma voz lhe chamando para outro, lembrando-lhe que as horas de repouso se acabaram.”

Nome: Jane Eyre
Autor: Charlotte Bronte
Editora: BestBolso
Páginas: 527


Sinopse: Narrada em primeira pessoa, a história conta a trajetória da órfã Jane Eyre. Uma mocinha que viveu durante um tempo sob a tutela de sua cruel tia Reed, até ser enviada pela mesma para um internato. Jane passa então boa parte de sua juventude na escola, estudando e criando laços de amizade. Aos 18 anos se forma professora e consegue um emprego honesto como preceptora em uma mansão no interior de Millcote. Uma residência enorme e melancólica de propriedade de um homem peculiar chamado Rochester, o grande e único amor da vida de Jane.


Jane Eyre” é aquele tipo de livro que quando terminamos de ler já nos sentimos solitários e com uma imensa vontade de reler no mesmo instante. Isso se deve, unicamente ao fato de que a protagonista, que dá título à história, é carismática e possui convicções marcantes que conquistam o leitor à primeira vista. Jane é aquela amiga, confidente e companheira que qualquer pessoa gostaria de conhecer, sentar e tomar um bom chá quente.

E não. Asseguro que essa simpatia que o leitor passa a nutrir pela personagem não se dá pelo fato dela ser inteligente, uma mulher à frente de seu tempo, que possui qualidades excêntricas ou uma vida repleta de aventuras instigantes. Muito pelo contrário, Jane cativa por ser uma mulher comum, sonhadora a seu modo, mas que mesmo assim não se deixa sair da sua realidade. Uma moça simples, dotada de uma mente comum, nada brilhante ou extraordinária.

Resumindo, Jane é gente como a gente.

Narrado em primeira pessoa pela própria Jane, é fácil para o leitor se conectar com a protagonista, afinal ela é tão comum quanto qualquer um de nós, não fugindo de seu tempo e tendo suas próprias ideias e convicções. Devo mencionar que mesmo sendo peculiar ao seu próprio modo, a moça não chega a lutar pelo que acredita, apenas tenta sobreviver da melhor forma que pode. Sendo assim, é notável que ela em nada se assemelha a personalidades literárias de grande renome como Elizabeth Bennet, por exemplo. Mas, é justamente nessa simplicidade que Jane ganha o leitor.

Sendo um romance de formação com nuances autobiográficas, é nítido que muito da história de Jane tem relação e inspiração na própria vida da autora, Charlotte Bronte. Uma narrativa ficcional que questiona muitos aspectos da sociedade do século XIX, relacionados a dilemas éticos e morais. Jane é uma personagem que a todo instante tenta se afirmar como pessoa, mostrar e demonstrar que seus desejos e sonhos são reais e que ela está ali. Uma protagonista que almeja sua liberdade e independência.

Jane; um ponto fora da curva

Mas, quando digo que ela é uma personagem “comum”, não quero dizer que seja uma personagem monótona, que aceita as diversas convenções sociais da Inglaterra do século XIX. Muito pelo contrário, em grande parte da narrativa, vemos a personagem questionar certos posicionamentos e atitudes que não a agradam, debatendo e expondo seu ponto de vista em relação a certas convenções como o casamento por conveniência; por exemplo.

“É inútil dizer que os seres humanos deveriam satisfazer-se com uma vida tranquila. Eles precisam de ação. E se não a encontrarem, irão fazê-la acontecer.”

O casamento por conveniência ou dinheiro é um assunto muito recorrente em obras de época. Casamentos que muitas das vezes não possuem amor ou respeito mútuo entre as partes, apenas um súbito jogo de interesses. E longe disso, Jane não deseja um casamento conveniente para si e que lhe dê uma posição ou status, muito pelo contrário, o que ela deseja é um casamento estruturado pelo amor. Um relacionamento que a faça viver com o homem que ama e escolheu para dividir a vida.

Ou seja, pode se levar em conta que Bronte assumiu para Jane as características de várias mulheres que existiram no século XIX; mulheres que eram órfãs, professoras, noivas, mendigas, herdeiras e por fim, esposas. Jane é completa, ela vive todas as fases citadas até finalmente conseguir se encontrar como mulher e assumir seu grande desejo, o de ser feliz. Certamente, uma mocinha diferente da maioria construída em romances de época. Uma mulher autossuficiente.

Jane e sua autossuficiência

Um ponto que podemos destacar e que se faz bem presente na personalidade de Jane, é a sua autossuficiência. Esse, além de ser um ponto interessante abordado em um romance de época, também pode ser encarado como uma espécie de crítica que Bronte resolveu fazer à sua colega de profissão Jane Austen.

E porque digo isso?

Simples. Jane Eyre é uma mocinha que prefere trabalhar duro para ter seu próprio dinheiro do que se casar por mera conveniência e ser sustentada pelo marido. Ela trabalha afim de conseguir se sustentar, sem precisar depender de terceiros ou mesmo sonhar com um casamento desprovido de amor. Jane é adepta a conquista, prefere conseguir o que lhe apetece com seu esforço e dinheiro.

“Não sou pássaro. E nenhum ninho me envolve. Sou um ser humano livre e independente, que agora, por vontade própria, vai deixá-lo.”

Esse seu posicionamento é bastante evidente em vários momentos pertinentes da narrativa. Um deles, inclusive é bastante perceptível, já que quando Jane fica noiva de seu amado, ele por ser um cavaleiro de grandes posses, tenta cobrir a jovem com presentes, agrados e artigos luxuosos. Esse fato em especifico acaba se tornando de grande desagrado para a moça que ao se descobrir herdeira de um dinheiro advindo de um tio distante, fica segura de que poderá sustentar seus gastos sem se “aproveitar” do dinheiro de seu marido.

Nada de beleza Grega

Uma das coisas que acho importante de destacar referente a obra é o fato de que “Jane Eyre” é um livro de romance em que os personagens não são endeusados por sua beleza grega. A autora deixa bem claro que tanto Jane, quanto seu par romântico são pessoas comuns e simplórias, não possuindo qualquer aspecto físico digno de ser exaltado.

“Certas pessoas são incapazes de descrever o caráter de alguém ou de algum objeto, de observar e ressaltar as características mais marcantes.”

É interessante abordar esse assunto, porque em vários momentos da narrativa, somos lembrados do quanto Jane e o senhor Rochester possuem características físicas que os tornam de certa forma “feios” perante a sociedade da época. A todo momento durante a história, lemos algum trecho em que uma pessoa menciona que Jane não é bonita, inclusive o próprio Rochester declara em pontos específicos que a moça não possuí qualquer charme que a torne atraente.

Devo admitir que Charlotte acertou em cheio ao apresentar ao leitor personagens tão simples e comuns quanto qualquer um de nós. Afinal, se não são dotados de uma beleza mágica, podem ser tão comuns quanto qualquer um. E quem, com a sua normalidade e características simplórias não iria querer viver uma linda história de amor passada em um romance de época?

Uma Autobiografia?

Antes de escrever essa resenha, admito que fiz algumas pesquisas sobre a obra, seu contexto e principalmente sobre a autora. E qual foi a minha surpresa ao perceber que existe muitas semelhanças entre a vida de Charlotte Bronte e a vida de Jane Eyre.

Primeiro, quando criança Bronte foi enviada para um colégio interno, juntamente com suas irmãs. Fato que acabou debilitando drasticamente sua saúde e apressou de forma considerável a morte de suas irmãs; Emily e Anne Bronte. Ela também chegou a trabalhar como preceptora e professora em um internato, tendo que deixar o emprego após falecimento repentino de sua tia.

Se você já leu Jane Eyre, notou as semelhanças com a vida da autora, principalmente no que tange o período em que a personagem viveu em um internato e perdeu uma amiga importante devido a uma doença, causada pelas péssimas condições locais oferecidas pelo colégio. A cargo de curiosidade, a doença que matou Charlotte e suas irmãs foi a tuberculose, mesma doença que acomete Helen, melhor amiga de Jane.


Charlotte e suas irmãs não tiveram uma vida fácil. Além de sucumbirem a doença que castigava os pulmões, também eram escritoras que sofreram com o machismo que imperava na Inglaterra no século XIX, afinal, se hoje em dia já é complicado para mulheres serem escritoras, imagina dois séculos atrás?

E mesmo que as irmãs Bronte não tenham alcançado um sucesso notório quando estavam vivas e morreram sem seu devido reconhecimento, há de se elencar que atualmente, as obras das três são consideradas por muitos, grandes clássicos da literatura mundial. Obras de grande valor e importância no que tange conceitos históricos de uma época distante.

Os aspectos religiosos que regem a narrativa

Esse é certamente um dos temas mais pertinentes e abordados durante toda a narrativa. A religião se faz presente em toda a obra, seja em preces feitas pela protagonista em momentos de agonia ou de forma mais explícita, principalmente quando chegamos ao final do livro e conhecemos um primo distante de Jane, o reverendo St. John. Um pastor que possuí uma estranha e amedrontadora forma de tentar convencer os outros de sua fé.

Veja bem, John, é um pastor que tenta persuadir Jane a se casar com ele para torná-la uma missionária. No entanto, eles não se amam e o casamento seria conveniente para que a moça pudesse acompanhá-lo em uma missão na Índia.

E porque o casamento?


Ora, para que não critiquem o pastor por levar uma jovem que não era sua irmã ou esposa como missionária. O fato é que Jane além de não o amar, acredita no amor e se encontra apaixonada pelo Senhor Rochester. Sendo assim, para a moça seria inadmissível trair seus próprios preceitos e convicções e aceitar se casar sem amor. E é aí que entra uma crítica pertinente e de suma importância na obra.

Bronte faz uma crítica velada em relação a manipulação feita pela religião e pela igreja. Ao ser negado por Jane, John usa de artimanhas maquiavélicas para tentar persuadi-la a se casar com ele. Usando discursos que impõem medo e uma promessa de punição divina, Jhon utiliza da fé de Jane para amedrontá-la e fazê-la achar que está se afastando e rejeitando Deus.

Se pararmos para pensar, infelizmente esse tipo de comportamento imposto por religiosos é bastante comum. Mas, será mesmo que Deus deixaria de amar seus filhos por se negarem a fazer algo que um mortal diz?

Outro ponto em que a religião se faz presente na narrativa, diz respeito ao último encontro de Jane com Rochester, um pouco antes do desfecho da trama. Quando Jane reencontra seu amado, cego, sem uma mão e com ferimentos pelo corpo causados por um terrível incêndio que atingiu sua residência. O próprio personagem, atribui seu infortúnio a uma espécie de castigo divino que o acometeu devido a má conduta que tinha durante a juventude.

Sentimentalismo e a quebra da quarta parede

Devo elencar que a narrativa de Bronte é deliciosa de acompanhar. Narrada em primeira pessoa, a história se desenrola com fluidez e simplicidade, sendo possível o leitor se identificar com Jane, já que por ela relatar sua história, seus pensamentos, sentimentos e emoções ficam evidentes durante a narrativa. A personagem cativa por estar sempre apresentando seu ponto de vista e posicionamento perante algum desafio ou provação.

“Mesmo que o mundo inteiro destetasse você e a achasse má, se sua consciência a absolvesse de qualquer culpa, você não estaria sozinha.”

Essa forma de escrita é perfeita tanto para criar uma conexão do leitor com a história, quanto para tornar o personagem mais realista. Dessa forma, Jane parece estar na nossa realidade, só que em um tempo distante do nosso e isso fica bem mais evidente quando a moça utiliza do recurso da “quebra de quarta parede” e se comunica diretamente com o leitor, ciando um vínculo de cumplicidade.

Essa “quebra de quarta parede” ocorre praticamente o livro inteiro, mas de forma contida, sem ser usado com exaustão. Esse recurso facilmente torna a narrativa uma espécie de diário, já que quando Jane pausa seu relato, ela se dirige ao leitor como se estivesse falando diretamente com ele, tornando-o seu confidente. Particularmente, acho esse tipo de escrita agradável e instigante, afinal torna possível uma conexão de leitor e personagem.

Tom melancólico

E para finalizar essa extensa resenha, não posso deixar de mencionar o tom melancólico e clima gótico que permeia a obra. Através de nuances sombrias, a narrativa transmite ao leitor uma certa sensação de desolação. Por ser uma história escrita no século XIX, toda a morbidez do período vitoriano se instaura nas páginas do livro, seja quando a autora descreve uma cena específica ou quando apresenta em detalhes a rica arquitetura de mansões inglesas.

Mesmo que essa não seja uma obra de horror, pode ser considerado aquele tipo de livro que possuí certos momentos capazes de deixar o leitor com um friozinho no estomago e os pelinhos do braço arrepiado, sobretudo quando Bronte descreve algumas situações inusitadas e perturbadoras que ocorrem na calada da noite na imensa mansão do Senhor Rochester. O clima sombrio que assola a residência e a sequência bizarra de fatos que acontecem na trama, além de serem surpreendentes, deixam aquele clima de tensão no ar.

Vale lembrar, que no ´século XIX era um tanto comum que algumas famílias mantivessem parentes que com problemas mentais, presos em sanatórios ou em casos específicos, em quartos isolados dentro de casa. Se hoje em dia, fatos como esses soam chocantes para nós, imagina naquela época? Apesar dessa prática ocorrer, era feita as encolhas, sem que qualquer pessoa ficasse sabendo ou desconfiasse do odioso ato.


Jane Eyre” é caracterizado como um romance de formação. Nele acompanhamos a vida de uma órfã que desde cedo aprende a lutar para sobreviver em uma sociedade severa. Uma personagem que questiona imposições e condutas da época, principalmente aquelas que se destinavam a mulheres. Com Jane, aprendemos que sonhar é bom, mesmo que seja com os pés no chão. Também descobrimos que uma mulher não precisa ser linda para conquistar alguém, mas sim, doce e gentil. E apesar de não ser considerada uma heroína clássica, Jane é certamente uma grande figura literária, uma personagem que diverge de todas do gênero “romance de época” por ser totalmente autossuficiente.


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