Segure Minha Mão – Guille Thomazi

A guerra é a coisa mais tenebrosa já inventada pelo homem. E “Segure minha mão” é um retrato fiel, sangrento e dramático de como guerras são devastadoras em todos os sentidos. Um livro necessário para nos fazer ter empatia por aqueles povos que vem sendo assolados pela destruição em massa de uma guerra sem sentido, razões ou motivações.


“Com suas vidas despedaçadas, grupos humanos vagam nas direções que os relatos, frequentemente contraditórios, passados de boca em boca, não mencionam.”

Nome: Segure Minha Mão
Autor: Guille Thomazi
Editora: Patuá
Páginas: 244
Nota: 4,5


Sinopse: Durante uma guerra que assola a Polônia, Olek se vê obrigado a se esconder com sua esposa grávida e sua mãe em uma cabana isolada. No entanto, no dia em que sua esposa, Ekaterina, dá a luz a um casal de gêmeos as coisas mudam drasticamente. Com um dos bebês tendo nascido prematuro e o outro natimorto, para evitar o sofrimento da esposa Olek esconde a filha caso ela não chegue a sobreviver. Porém, em luto por seu bebe Ekaterina levanta no meio da noite e foge, sem rumo. E então Olek parte em uma busca sem destino para encontrar sua amada.


Segure minha mão” é aquele tipo de livro que por mais que tenha uma narrativa pesada, crua e sanguinolenta, acaba sendo essencial. Porque? Simples, para que nós como seres humanos percebamos o quanto guerras, causadas por não se sabe qual motivo são desnecessárias, desumanas e sem sentido.

Guille Thomazi faz um trabalho exemplar ao narrar com riqueza de crueldade uma guerra fictícia. No enredo o leitor não sabe como ela começou e nem porque. E isso não é um problema, já que a trama principal não gira em torno da guerra, mas ela está tão visível e presente que se torna parte essencial da história.

“Cada bala deixa sua marca na cidade. As balas de cá, quando atingem o mar, estouram em jatos violentos e torvelinho, e a superfície se regenera sem consequências. Mas quando atingem a embarcação, o navio estrepita, muitas vezes soçobra. Suas entranhas ardem como cupinzeiro escaldado, e os marinheiros, como cupins, arrastam-se feridos, para longe da cratera fumegante.”

Apesar de ser um livro com uma narrativa fluída, não é fácil lê-lo e muito menos se sentir motivado a continuar. E não digo isso porque a história é ruim, mas sim, porque a narrativa incomoda assim como guerras incomodam. Saber se o protagonista vai ou não encontrar sua esposa em meio ao caos é o que move o leitor a continuar a leitura, mesmo que a cada página lida, uma sensação de impotência e raiva surja. E repito, não é porque a história seja ruim, mas sim porque a guerra incomoda. Demais.

Ficção VS Realidade

Apesar da guerra narrada no enredo ser fictícia, as descrições de eventos e das formas como ocorrem bombardeios ou mesmo “chuvas” de metralhadoras nos soldados, podem ser no meu simplório conhecimento sobre guerras, extremamente reais e chocantes.

Se compararmos esse livro com os famosos filmes hollywoodianos e obras que igualmente retratam guerras, veremos que “Segure minha mão” é tão fiel a realidade que quase criou uma.

“Os civis remanescentes permanecem em seus porões; alguns acabarão soterrados, esperando pelo silêncio do vácuo, depois dos poloneses, que precederá as vozes suadas.”

Não é uma leitura fácil. A cada parágrafo devo admitir que tive que parar de ler para simplesmente digerir certos acontecimentos que me deixavam aflita, principalmente quando encontrava cenas envolvendo crianças, mulheres, idosos, animais, tudo descrito com uma crueza de detalhes que me deixava angustiada.

Apesar de ter consciência de que devido a narrativa chocante esse não seja um livro para todos, devo insistir que a leitura é válida e pertinente, principalmente em nosso contexto atual. Afinal o mundo não é e nunca foi cor de rosa.

Olek

Você acha que seria possível se identificar com um personagem que praticamente não tem falas?

Se a sua resposta for não, eu digo que se você ler “Segure minha mão“, suas considerações sobre isso irão mudar.

Olek é o protagonista da história. E existem dois bons motivos para que ele quase nunca fale em toda a trama. O primeiro é que ele é gago e sempre que tenta falar (principalmente com soldados) ou zombam dele ou atribuem sua gagueira a um nervosismo que leva a acharem que ele está mentindo.

Já o segundo motivo é porque praticamente o livro inteiro ele se encontra sozinho na busca desenfreada pela mulher de sua vida, porém suas atitudes e sua personalidade levam facilmente o leitor a se identificar com ele.

Olek é aquele tipo de protagonista que por mais que já esteja sofrendo o pão que o diabo amassou, vai ajudar ao próximo e “estender” a mão (pegou a referência ao título?).

“Os fortes braços se fecham para envolver e proteger e trazer para junto de si a menina, que apenas observa, acompanhando com o olhar a aproximação daquele gigante cuspido do centro de uma bola de fogo.”

Desde o inicio de sua jornada vemos ele encontrar e salvar animais, crianças e mulheres. Pessoas indefesas que estavam perdidas a mercê de uma guerra aparentemente sem fim. E mesmo quando encontra um possível rival e tendo a chance de se livrar dele, Olek se mostra um homem de virtudes e extrema bondade.

É impossível não se compadecer com a dor desse homem e não torcer para seu sucesso. Ele te conquista a cada página lida, com suas atitudes e bondade. Sem dúvida um dos personagens mais incríveis que já encontrei em um livro.

O título e referências históricas

Esses são dois pontos interessantes a serem destacados.

Segure minha mão” é um título que combina perfeitamente com o livro. Isso porque a analogia se faz devido ao fato do protagonista sempre ajudar alguém pelo seu caminho, ou seja, estender a sua mão.

Olek é aquele personagem que não mede esforços para ajudar aos outros e mesmo tendo seus próprios problemas, não deixa nada e nem ninguém em dificuldade para trás. Mesmo estando no meio de uma guerra que pode fazê-lo de vítima a qualquer momento.

E, para aqueles leitores ávidos por referências históricas, o livro é cheio delas. Desde referências a guerras reais, como também a eventos que marcaram a história de nosso mundo. Como por exemplo a lenda de Rômulo e Remo, imperadores romanos que quando crianças foram adotados e amamentados por uma loba.

Apesar das referências nem sempre estarem claras no texto, muitas são possíveis de deduzir devido a nossa percepção e conhecimento de mundo.

Uma história de amor

E sim. “Segure minha mão” é uma linda e trágica história de amor interrompida por uma guerra devastadora. Olek é um homem apaixonado que busca desenfreadamente sua esposa. Ele não mede esforços para encontrá-la, e tudo isso porque ama a filha que tiveram, Dannika.

Exatamente, a história de amor a que me refiro não é aquele amor ilógico e irracional de um homem por uma mulher, mas sim um amor puro e verdadeiro de um pai por sua filha. Ekaterina é a última opção de vida da pequena Dannika e por se sentir culpado pelo desaparecimento da esposa Olek resolve encontrá-la.

Creio que a única definição para a coragem e força de vontade do personagem possível tenha sido dita no próprio livro por um personagem que acredita que aquele homem, gago e repleto de cicatrizes vai encontrar sua esposa e continuar vivo.

“Tem certeza de que Olek sobreviverá, pois agora sabe que aquilo que viu em seus olhos diante da fornalha não foi o brilho das chamas, mas o próprio fogo que ele carrega.”

Segure minha mão” é um livro que todos deveriam ler. Uma história que retrata o amor incondicional de um pai pela filha e que mostra através de riquezas de detalhes como guerras podem ser devastadoras, principalmente aquelas que não se sabe o porque começaram e nem quando vão acabar.


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3 comentários em “Segure Minha Mão – Guille Thomazi

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