Um Jeito de Recomeçar – Felipe Salomão

Um livro estranhamente perturbador. Difícil de entender, mas fácil de compreender que muitas das vezes uma pessoa que não tem quaisquer perspectivas de vida pode querer atrapalhar a felicidade alheia. Um livro que demonstra a falta de empatia e a inveja humana, mas que versa casualmente com os segredos mais sórdidos guardados no mais indecoroso recanto do coração humano.


“Aprendemos mais com o fundo do poço do que com o topo da montanha, mas, de um é fácil sair, do outro, não.”

Nome: Um jeito de recomeçar: Novos sonhos, antigos pesadelos
Autor: Felipe Salomão
Editora: Publicação independente
Páginas: 88
Nota: 3,5


Sinopse: Após sofrer um baque profundo ao chegar em casa e descobrir que seu pai havia assassinado sua mãe e cometido suicídio em seguida, a estudante Carol resolve “recomeçar” e para isso escolhe como destino uma pequena pensão em um local paradisíaco. Lá, a moça conhece seus adoráveis anfitriões… Um lugar perfeito… Vidas perfeitas… Pessoas perfeitas… Será mesmo?


Um jeito de Recomeçar” é aquele tipo de livro que a princípio aparenta ser esperançoso devido ao título “leve” que remete a um romance ou uma história que trate sobre recomeçar a vida de forma mais doce, suave. No entanto, devo alertar que esse é um ledo engano, caro leitor.

A narrativa em primeira pessoa a princípio é um tanto confusa e pode fazer o leitor se sentir um pouco perdido na trama, visto que, a narrativa apresenta em sua estrutura uma carga emocional oriunda dos sentimentos confusos e depressivos que assolam a protagonista. Carol deixou de pertencer a um lar e principalmente, deixou de pertencer a si mesma.

“Às vezes, começar do zero, largar tudo, assusta. No meu caso, começar do zero não me assusta, não me anima, não me motiva, não é um sonho, apenas é. Não porque quero, apenas porque o que eu era não existe mais, e é mais fácil sumir do que explicar isso.”

Essa confusão provocada pela narrativa torna esse um elemento fundamental para o desenrolar dos acontecimentos e desenvolvimento da personagem principal que se encontra perdida em seu próprio mundo, imersa em seus medos, suas angústias. Carol não encontra mais sentido em sua vida.

Bipolaridade? Dupla Personalidade? Sociopata?

Francamente eu não sei responder a essa questão. A narrativa da história em grande parte confunde.

Carol em quase toda a trama apresenta nuances de que sofre de algum tipo de transtorno mental, tais como bipolaridade, dupla personalidade ou mesmo sociopátia. Essa perspectiva é principalmente evidenciada devido a personagem lembrar o leitor a todo momento que é ela quem narra a história, mas sempre se referindo a si mesma como “eu, Carol”, como se fosse duas pessoas distintas.

“Uma coisa é certa: Eu, Carol, não era feliz. Talvez o mundo não fosse feliz. Mundo, lugar onde todos se matam, mas todos tentam evitar que as pessoas que querem morrer morram. Já pensou que, quanto mais suicidas existem, menos suicidas existem? Esse mundo insano, que se preocupa quando todos olham e não se preocupa quando ninguém olha.”

Como a narrativa é feita pela personagem, essa confusão que ocorre em boa parte do texto é perfeitamente normal, afinal o leitor está vendo apenas um lado da história e acompanhando de camarote o desenrolar da trama através da perspectiva de uma jovem que sofreu um grande impacto emocional e se encontra com os sentimentos aflorados.

A falta de empatia

Uma das coisas que me incomodou profundamente na protagonista é a sua falta de empatia. Carol é uma garota que por ter sofrido um baque da vida parece não querer que ninguém seja feliz e dessa forma, arruma as piores formas para expor o pior do ser humano ou mesmo aqueles segredos mais escuros das pessoas que a rodeiam.

Sendo assim, é aceitável que nós leitores não nos identifiquemos com ela e torçamos para que a personagem tenha um desfecho ruim.

é interessante mencionar que essa falta de empatia que nós leitores acabamos assumindo para com a personagem nos leva a sermos tão egoístas quanto ela. Afinal, mesmo que saibamos que Carol tenha passado por um momento trágico em sua vida e esteja com sérios problemas psicológicos que deveriam ser avaliados por um médico específico, acabamos por condená-la por suas atitudes puramente egoístas.

Carol é impulsiva, egoísta e sim, detestável. Mas é nitidamente visível que devido ao baque emocional que sofreu, ela acabou por desenvolver algum tipo de distúrbio. Entretanto, vale ressaltar que todas as ações e atitudes da personagem não devem ser justificadas com a desculpa de que ela está passando por um período conturbado.

Vidas perfeitas?

Em “Um jeito de recomeçar”, um ponto pertinente que deve ser destacado da leitura é a proposta de discussão sobre “vidas perfeitas”, visto que, Carol resolve se refugiar em uma pequena pensão localizada em um ambiente paradisíaco. Um lugar belíssimo, povoado por pessoas humildes e simpáticas que estão sempre de braços apertos para receberem a todos.

Pessoas hospitaleiras e que não possuem nada de errado em suas vidas. Certo?

Errado… Essas pessoas são como qualquer outra e estão profundamente “quebradas” de alguma forma e a ida de Carol para esse lugar simplesmente reflete aquilo que nós leitores sabemos muito bem; nada é “perfeito”. E mesmo naquele lugar caloroso em que tudo parece sempre estar bem, algo está nitidamente errado.

“Existem dois loucos dentro de você, o bem e o mau. Aquele que você alimentar é o que irá sobreviver. A felicidade e a tristeza. Aquela que você alimenta é a que vai sobreviver. São escolhas feitas por nós, por gente à nossa volta.”

Divago um pouco em minhas considerações literárias ao questionar se o que a obra realmente quer nos mostrar é que “vidas perfeitas” não existem e nunca vão existir. E partir do momento em que somos introduzidos na vida de pessoas que parecem viver um mundo cor de rosa, conhecemos então suas decepções, anseios, medos e culpas. Sentimentos carregados por personagens carismáticos e alegres.

Por fim, quando Carol se vai, é nítido que o clima que fica no ar é de desolação. Um clima que mostra que naquele lugar perfeito tudo era “mentiroso” e tão quebrado e normal quanto qualquer outro lugar.

Inveja?

Quando terminei a leitura, confesso que a primeira impressão que tive foi de que Carol tinha uma ponta de inveja da vida das pessoas que conhece na pensão e por isso decidiu expor os piores e mais sórdidos segredos de cada uma. No entanto, ao parar para simplesmente refletir sobre as mensagens intrínsecas que estão presentes no enredo, concluí que o que Carol fez foi cutucar feridas que nunca haviam cicatrizado.

A personagem é o alicerce para expor todos os problemas internos de cada um dos personagens, como se fosse uma “agente do caos”, se assim podemos dizer.

Tomo a liberdade portanto, de comparar Carol a protagonista de um dorama tailandês chamado “Garota de Fora”. Embora as premissas sejam completamente diferentes, ambas as personagens se assemelham, pois tendem a levar as pessoas que as rodeiam ao limite, expondo o pior de cada um.

Por fim…

É nítido que Carol é uma garota com sérios problemas mentais o que a torna uma pessoa tóxica, insatisfeita com sua vida e capaz de tudo para destruir a felicidade alheia. No entanto, apesar da personagem colaborar para que o enredo caminhe para esse lado, não podemos deixar de mencionar e analisar que “Um jeito de recomeçar” versa de forma profunda e dolorosa sobre estruturas familiares.

No enredo, todos os personagens possuem uma família que a princípio parece “perfeita”, mas que com o decorrer da narrativa se torna visível seus defeitos e pilastras quebradas e rachadas.

“Fazer tudo certo dessa vez? Jogar o rascunho que é a sua vida? Não se prender, ir para qualquer lado, sem nenhum compromisso? Ou seria o fato de não precisar aceitar as consequências das decisões erradas que você já tomou?”

As tramas se desenvolvem em problemas simples, mas que podem causar sérios problemas em um seio familiar; seja pelo abandono, insatisfação com o matrimônio ou mesmo uma discussão pertinente sobre homossexualidade. Ainda que esta última não seja amplamente explorada, é nítido a dor de uma pessoa que não é aceita por sua família.

Nesse ambiente Carol se torna apenas a peça chave para que todos externem seus verdadeiros “Eus”. Afinal, ela não está feliz e não quer que ninguém seja feliz. O me leva a supor que ela seja simplesmente uma espécie de entidade que suga toda e qualquer tipo de felicidade alheia.

Um jeito de recomeçar” é um livro confuso. A narrativa em primeira pessoa nos apresenta uma personagem que vamos sentir raiva, odiar. No entanto, ela é certamente o pano de fundo de uma história que se atêm a expor a imperfeição de estruturas familiares. Um livro rápido e fácil de ler e que se desenrola com fluidez, causando desconforto e incerteza ao leitor, levantando inúmeros questionamentos principalmente sobre a tão almejada “Vida Perfeita”.


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4 comentários em “Um Jeito de Recomeçar – Felipe Salomão

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