O Crime do Padre Amaro – Eça de Queiroz

Se existe uma palavra que definiria a essência dessa obra, certamente a palavra seria: polêmica. Uma palavra que expressa com uma verdade intensa a síntese do que Eça de Queiroz queria causar em seus leitores, e na sociedade portuguesa da época quando lançou seu livro “O Crime do Padre Amaro”. Obra repleta de críticas sociais e políticas que escandalizaram a grande Portugal no século XIX.


“Eu não preciso dos padres no mundo, porque não preciso do Deus do céu.
Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro em mim,
isto é, o princípio que dirige as minhas ações e os meus juízos.”

Nome: O Crime do Padre Amaro
Autor: Eça de Queiroz
Editora: Círculo do livro
Páginas: 488
Nota: 5,0


Sinopse: Após se formar como sacerdote o jovem padre Amaro se muda para o pequeno povoado de Leiria, afim de ministrar a arquidiocese local. Com poucos recursos financeiros, o rapaz aluga um quarto em uma pensão simples porém acolhedora e após se estabelecer no local e conhecer alguns dos habitantes daquela cidadezinha, Amaro encontra a filha da dona da pensão, Amélia. Seria esse o início de uma bela história de amor? Poderia… Mas… Essa não é uma história de amor proibido… Na verdade, está longe disso.


O Crime do Padre Amaro” é um clássico da literatura mundial. A história é totalmente contada em terceira pessoa por um narrador onipresente e consequentemente onisciente, que expressa veemente durante os 25 capítulos que compõe a obra, seu posicionamento acerca de várias questões que surgem ao longo da história que apresenta para nós leitores a vida e a decadência do jovem padre Amaro, narrando como o sacerdote afundou em um antro de pecado e perdição que o conduziu em direção ao “crime” que dá nome ao livro.

A narrativa de Queiroz é forte, cruel, densa e nos aponta com um vocabulário extensamente rico toda uma decadência moral e ética que provém do ser humano quando este sucumbe aos prazeres mundanos que a vida proporciona. O autor não mede palavras ao criar personagens sem escrúpulos e que utilizam de seus cargos de posição elevada e relevância social como forma de manipular a sociedade em que estão inseridos.

“Toda a vida do bom católico, os seus pensamentos, as suas ideias, os seus sentimentos, as suas palavras, o emprego dos seus dias e das suas noites, as suas relações de família e de vizinhança, os pratos do seu jantar, o seu vestuário e os seus divertimentos, tudo isso é regulado pela autoridade eclesiástica, aprovado ou censurado pelo confessor, aconselhado e ordenado pelo diretor da consciência.”

Uma obra densa, que possui altas críticas a hipocrisia e a corrupção que ocorria tanto dentro da igreja católica no século XIX quanto na alta sociedade burguesa de Portugal. Eça de Queiroz não mede esforços em transpor para as páginas de seu livro as convenções sociais de sua época e a forte religiosidade que praticamente governava a Europa.

Uma obra espetacular

O Crime do Padre Amaro” é o primeiro grande romance escrito e publicado pelo romancista e diplomata português, Eça de Queiroz, e tornou-se o grande marco do naturalismo na literatura portuguesa, tendo sido publicado pela primeira vez em 1875 e tendo sua versão definitiva em 1880.

A obra se destaca principalmente pela defesa estabelecida pelo autor de que “o homem é fruto do meio em que vive”, de uma espécie de determinismo que molda o caráter humano. É através desse contexto que a controversa história do tão emblemático padre Amaro se desenrola.

Após ser publicado, o livro recebeu inúmeras críticas, sobretudo, pela forma bruta e feroz com que o autor se interpõe a criticar os pilares que serviam de base para a sociedade burguesa de Portugal; o Estado, a igreja e a família. Além disso, por tratar de assuntos como, a sexualidade e a sensualidade, o egoísmo, o celibato e o alto poder eclesiástico da época, o autor sofreu uma grande represália que resultou na perseguição ao mesmo pela Igreja Católica.

Uma caracterização exemplar

Uma das coisas mais sublimes a se destacar em “O Crime do Padre Amaro” é a escolha da narrativa em terceira pessoa que foca em nos apresentar todas as faces do romance, mesclando momentos que se passam no passado e no presente e que por conseguinte culminam no terrível e assombroso futuro que premedita a obra desde seu título.

Através de um narrador onisciente e onipresente, o leitor acompanha o desenrolar dos eventos por meio da visão de cada personagens, dessa forma, é possível compreender o que se passa na mente de cada um deles e perceber suas personalidades e peculiaridades, bem como seus medos e anseios. Com essa perspectiva é possível perceber a natureza e índole de cada pessoa que compõe a trama, o que torna basicamente impossível para o leitor sentir afeição por qualquer um deles, já que a sinceridade e a humanidade que Queiroz cria para eles os torna minimamente insuportáveis.

Desde a tola e apaixonada Amélia, até o possessivo e ciumento Amaro. Nenhum personagem escapa à realidade, todos são terrivelmente humanos a ponto de deixar o leitor abismado com suas escolhas erradas e problemáticas. Vale ressaltar que infelizmente, seres humanos desprezíveis como os descritos por Eça de Queiroz existem aos montes espalhados pelo globo terrestre.

Em “O Crime do Padre Amaro” conhecemos o lado mais desprezível do ser humano, personagens de índoles questionáveis que são aparentemente considerados durante boa parte da trama como “bons moços“. Pessoas dissimuladas e manipuladoras, que se escondem sob máscaras que além de ocultar suas verdadeiras faces, também funcionam como uma espécie de “escudo de uma posição social”, dotada de um status capaz de manipular os mais fracos e influenciáveis.

Crítica a igreja

O fato é que Eça de Queiroz escreveu uma obra extremamente ácida e que corrói sem compaixão os diversos sacrilégios que a Igreja Católica cometia (e ainda comete), criticando duramente todo um sistema religioso que por estar ao lado da alta burguesia de Portugal, acabava ficando impune perante a todos os ultrajes que ocorriam e que eram acobertados. Queiroz não escreveu um livro para agradar, mas sim para protestar e como escritor sua forma de protestar e atacar certamente era escrevendo.

Ao longo da narrativa, enquanto acompanhamos a trajetória de Amaro e de outros sacerdotes que compõem o enredo, fica evidente que o autor que não se limitou em destacar seu posicionamento crítico, já que ele retrata os padres como seres humanos passíveis de erros, portanto, pecadores que não estão livres de cometer uma heresia.

Os sacerdotes retratados em “O crime do Padre Amaro”, em suma se “vendem” por dinheiro. Manipulam poderes públicos e pessoas, muitas das vezes utilizando da fé vendida pela religião ou mesmo do Status de homens honrosos que possuem. Infelizmente, não é algo muito distante do que vemos atualmente, a diferença é que nos dias atuais esse comportamento não é exclusivo da Igreja Católica.

“Já então sabia o catecismo e a doutrina; na mestra, em casa, por qualquer “bagatela”, falavam-lhe sempre dos castigos dos céus; de tal sorte que Deus aparecia-lhe como um ser que só sabe dar o sofrimento e a morte e que é necessário abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando os padres.”

Felizmente, Eça de Queiroz consegue diferenciar sua opinião pessoal da mensagem que sua obra passa, afinal, por mais que quase todos os personagens que aparecem possuam uma índole no mínimo duvidosa, o autor introduz em seu livro um personagem que se torna um “ponto fora da curva”, já que este se destaca justamente por contrapor com as características dos sacerdotes que o autor estabelece no início do enredo. Um personagem sensato e digno em meio a tantos que não possuem qualquer escrúpulo.

Um ponto fora da curva.

Creio que o Abade Ferrão tenha sido um personagem introduzido na história para mostrar ao leitor que nem tudo está perdido, que pode sempre se ter esperança na humanidade. Se por um lado a obra é recheada com uma crítica ácida, por outro temos o pungente fio da esperança que reluz como uma pequena lamparina acessa no fim de um túnel banhado na mais absoluta penumbra. Esperança essa que não apenas oferece para a narrativa uma espécie de trégua em meio a tempestade de personagens desprezíveis que compõem a obra, como também passa a expressar a inegável certeza de que ninguém é igual.

O acréscimo do personagem possui uma importância profundamente relevante na trama, principalmente para compor o elemento crítico que permeia a obra, já que, é através dos vários diálogos travados com o Abade que Amélia consegue em alguns vislumbres abrir seus olhos e enxergar algumas verdades. O clérigo por sua vez, prova através de sua inegável honestidade ser diferente dos outros sacerdotes que foram apresentados na história, pois mesmo tomando ciência do relacionamento que ocorreu entre Amélia e Amaro e sabendo que seu colega de batina cometeu uma profanação gravíssima, se resguarda ao segredo do confessionário e não denúncia o padre em questão.

“Quis então levar aquele noturno cérebro de devota, povoado de fantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror de ofender a Deus. Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo. Que é por amor que é necessário servi-lo, não por medo.”

É interessante pontuarmos que o Abade Ferrão pode ser encarado nitidamente como uma ponte ao qual devemos nos atentar ao julgarmos um determinado sistema ou grupo de pessoas. Generalizar não é algo benéfico, e Eça de Queiroz nos mostra isso claramente, afinal por mais que seu livro esteja recheado com críticas a um sistema religioso, ele se permite parar, pensar e expressar que nem todos que compõem esse sistema são ruins.

O Abade Ferrão é um personagem interessante, talvez o mais interessante de toda a obra. Ele acredita em seu ideal religioso e o reitera de forma honesta, sem manipulação ou condutas indevidas. O sacerdote afirma apenas aquilo que acredita ser o melhor para si e para o próximo. Essa conduta é bastante evidente nos diálogos que ele tem com Amélia e com o Doutor Gouveia.

Os diálogos conduzem a história

Esse é certamente um dos pontos mais pertinentes a serem destacados quanto a qualidade e desenvolvimento da história, além de provar o quanto Eça de Queiroz foi e ainda é um exímio escritor, posto que, a narrativa altamente detalhada e os diálogos bem construídos repletos de nuances filosóficas conduzem de maneira excepcional a trama para seus trágicos acasos.

Em “O crime do padre Amaro”, cada diálogo é meramente importante, seja para contar minunciosamente um momento da história, seja para situar o leitor em algum acontecimento passado ou mesmo para complementar um trecho que finalize um ponto deixado em aberto pelo escritor.

Boa parte das falas empregadas pelos personagens em rodas de conversas, são dotadas de uma certa profundidade, quase sempre repletas de nuances políticas e discussões filosóficas. Certamente, os diálogos são a parte central do texto, conduzindo de forma hábil o leitor para o passado, presente e não raras as vezes para o futuro, quando em determinadas prosas os personagens exprimem o que pensam fazer.

Olhos de cigana oblíqua, Amélia?

Por fim, encerro essa extensa resenha com uma indagação que me ocorreu durante a minha experiência de leitura. Quem seria exatamente a personagem Amélia?

É nítido que a jovem é facilmente manipulável durante toda a trama, caindo facilmente na lábia e nos braços do encantador e dissimulado Padre Amaro. Amélia se deixa influenciar pelo jovem e acata sem questionar tudo que ele lhe propõe. A princípio podemos pensar ser ingenuidade de uma moça apaixonada, mas, será mesmo?

Em vários trechos em que o narrador descreve as sensações e pensamentos de Amélia, podemos conhecer uma mulher nitidamente apaixonada, mas que ao mesmo tempo em que nutre uma paixão desesperadora, também entra em um conflito interno consigo mesma. A moça sabe que o fato de Amaro ser um padre torna a paixão dos dois proibida e pecaminosa. Mas ainda assim, ela sucumbe aos seus amores e é aí que a crise de consciência acomete sua mente, até então absolvida de qualquer temor.

Esse pensamento de Amélia torna-se evidente após a moça acreditar ter sido “abandonada” e “castigada” pela Virgem Maria devido ao romance que ela mantinha com o padre. Essa crença do pecado e do castigo divino é tão forte na personagem que a mesma começa a ter pesadelos tenebrosos que a deixam apavorada e com um medo absurdo de morrer. Mas se suas crenças eram tão fortes assim e sua devoção tão grande, por que ela optou por transgredir seus valores?

Existe um ponto ao qual podemos chegar e que torna essa uma discussão mais ampla. Amélia estava presa em uma espécie de “ciclo vicioso”.

Veja bem, sua mãe, conhecida na história como São Joaneira, mantinha um relacionamento amoroso com o Cônego Dias, um outro sacerdote. Não fica claro no livro se Amélia sabia desse relacionamento, no entanto é um fato inquestionável que o romance do clérigo com a mãe da jovem foi fundamental para que Amaro considerasse a atração física que sentia pela moça e a manipulasse para que ambos pudessem desfrutar daquele amor proibido. Em suma, podemos facilmente encarar o destino de Amélia como um martírio familiar.

Ainda assim, Amélia transcorre para mim como uma incógnita total. É evidente que a moça estava apaixonada por Amaro, mas ela também sabia que não era certo um romance entre os dois. Julgá-la como dissimulada é um tanto cruel, mas assumir sua ingenuidade não é algo plausível. Deixo, portanto, as minhas considerações de que Amélia era como muitas mulheres apaixonadas e assim como elas se deixou levar pela astúcia daquele que amava.

“Era esse poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influência da sua voz que a faziam crer na promessa que ele lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ela o interesse, a amizade de Deus.”

O crime do Padre Amaro” é um livro de infinitas discussões. Sua força narrativa sobrevive até os tempos atuais e sua importância social é inegável. É uma obra que transcende o tempo em que foi escrito. A crítica social, política e sobretudo religiosa que compõe a obra, faz de Eça de Queiroz um ilustre escritor, dotado de uma veemente coragem e que merece ser lido e reconhecido. Um livro rico e fundamental que alcança com soberania tudo que propõe.


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4 comentários em “O Crime do Padre Amaro – Eça de Queiroz

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